HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO

Medo de ser feliz

Não consegue mexer-se. Paralisaram-lhe os movimentos. Vá lá! Uma angústia, um nó na garganta, vontade de fugir, para onde não sabe.
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Tem os intestinos às voltas enquanto ouve a professora. Precisa de uma casa-de-banho. A professora olha-o a direito nos olhos, ele finge-se de morto. "Preciso ficar em casa", responde. Porquê? "Preciso mesmo". É para cuidar dos teus irmãos, não é? "Foi só porque a minha irmã ficou doente". E a tua mãe? Silêncio. A tua mãe trabalha? Silêncio. Não há mais ninguém que fique com os teus irmãos? Silêncio. Vontade de ir à casa-de-banho. Um nó na garganta a subir para os olhos. Finge-se de morto. "Sabes que já esgotaste as faltas todas deste ano e do próximo? Podes reprovar. Se fizeres este curso tens um futuro." A garganta apodera-se dos olhos. Os intestinos às voltas.

Demora a chegar a casa, não quer voltar. Vai pelo caminho mais longo. A casa está vazia. A mãe saiu pela noite. Apenas o aguardam os dois irmãos mais novos, reclamam comida. A menina tem a fralda suja.

"Falta à escola? Não sabia. Ele sai todos os dias de manhã para as aulas". Ouça, todas as mães querem o melhor para os seus filhos e o melhor para ele é vir às aulas. Ele está a tirar um curso, para o ano conclui a escolaridade, tem uma profissão. "Pois é... vou ter uma conversa com ele, não faço ideia. Anda-me a mentir. Não se preocupe professora, eu vou falar com ele". Levanta-se. Arranja-se dentro da mini-saia de ganga, faz tilintar as pulseiras que tem nos braços. "Obrigada, professora".

Sai da escola com a cabeça em água. Ferve-lhe na carteira a notificação do tribunal. O homem já está na prisão, aguarda julgamento. Se ela também for dentro quem é que assegura o negócio? O cunhado e o primo dão conta do recado, mas não vai chover o dinheiro do costume. O filho é parado, mas com dezasseis anos já é um homem. Tem que o iniciar, para o caso de acontecer o pior.

Falou com a mãe do seu aluno? Ela pode ficar sem os filhos, se for presa. Vamos ter que os encaminhar para famílias de acolhimento ou instituições de menores. Toda a família vive do tráfico de droga e os menores estão em risco. "Sim, falei. Também falei com ele".

Queres experimentar a escalada? Sim? Encolhe os ombros, finge-se de morto. Um peso na cabeça, um adormecimento constante. Queres ou não? Os colegas trepam a parede, batem palmas, estimulam-se para chegar ao fim, riem-se. Não consegue mexer-se. Paralisaram-lhe os movimentos. Vá lá! Uma angústia, um nó na garganta, vontade de fugir, para onde não sabe. Sobe, vamos lá. Medo, confiança, um formigueiro a agitar-lhe o sangue. Palmas, risos, confiança. Conseguiste, vês? Gostaste? Um sorriso, um brilho nos olhos. Uma angústia. Medo de ser feliz.
Teresa LimaMãe de um menino adotado
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