A PALAVRA A...

Educação e Instrução

Referimo-nos ao tempo em que, por motivos bem evidentes para os que então se preocupavam com estas questões, na linguagem dos políticos tanto se falava de educação como de instrução.
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Nos nossos dias, o discurso político tende a associar as políticas de educação e formação, suscitando nos educadores uma reflexão cuidada sobre a proximidade dos dois conceitos, apreciando as suas afinidades e, também, as suas diferenças.

De algum modo, retoma-se uma dialética muito mais antiga, quando esse esforço de distinção incidia sobre dois outros conceitos que, na altura, faziam parte do léxico político.

Referimo-nos ao tempo em que, por motivos bem evidentes para os que então se preocupavam com estas questões, na linguagem dos políticos tanto se falava de educação como de instrução.

Vale a pena, por isso, recordar o que distinguia um conceito do outro.

Como se lê no Dicionário da Língua Pedagógica de Paul Foulquiè, a palavra educar vem do latim 'ducere' que significa 'conduzir para fora de'.

Daí que, etimologicamente, educar significa 'fazer com que a criança saia do seu estado primitivo', ou 'fazer com que saia dela (tornar ato) o que possui virtualmente'.

Nesta última referência, situa-se a lógica educativa orientada para o pleno desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo que se fundamenta a ideia de alargar o conceito a jovens e adultos, pois as virtualidades (e as exigências) educativas se estendem por toda a vida.

Bem diferente deste conceito de educação, aparece o conceito de instrução quando, no Dicionário referido, se lhe comete o significado de 'atividade que tem em vista a aquisição das qualidades morais e das virtudes sociais'.

Mas o certo é que, na linguagem comum, os dois conceitos, por vezes, apareciam um tanto assimilados, ainda que os estudiosos tentassem distingui-los no apuramento que fazem de um e outro.

É assim, por exemplo, que Dupanloup escreve que a 'educação e a instrução são duas coisas profundamente distintas'.

Com efeito, acentua ele que 'a educação desenvolve as faculdades (enquanto) a instrução dá conhecimento', 'a educação eleva a alma (enquanto) a instrução alimenta o espírito'; 'a educação é o fim (enquanto) a instrução não é mais que um dos meios'.

Mais incisivamente, escreveu Gandhi: 'na minha opinião, a educação consiste em extrair globalmente da criança e do homem tudo o que têm de melhor, quer se trate do corpo, da inteligência ou do espírito. Saber ler e escrever não é o fim da educação (...). Este conhecimento é um dos meios que permitem educar a criança, mas não deve ser confundido com a própria educação'.

Dentro deste pensamento de distinção entre educação e instrução, por vezes surgiram expressões radicais, naturalmente justificadas pela preocupação de separar os conceitos, sem se reconhecer que, na prática, quase sempre se encontram lado a lado.

Repare-se, por exemplo, no que escreveu E. Renan, ao dizer que 'a instrução dá-se na aula, no liceu, na escola; a educação recebe-se na casa paterna'. Ou ainda, no que referiu E. Faguet ao escrever que 'a criança, nas mãos de um professor (...) aceita a instrução instintivamente, com um instinto que talvez não seja mais do que a voz da educação ancestral, e de modo nenhum aceita a educação'.

Num caso e noutro, é notório o exagero, aliás em correspondência a um conceito de escola que lhe reservava meras funções de instrução pública ou privada. No entanto, essa conceção afigura-se profundamente redutora, pois o papel da escola, para além da transmissão de conhecimentos, tem uma outra dimensão educativa que não pode ser ignorada.

Uma coisa é reconhecer que é aos pais que compete, em exclusivo, escolher a educação que desejam para os seus filhos; outra, bem diferente, é admitir que só eles participam na concretização dessa escolha.

Albano EstrelaProfessor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
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