A PALAVRA A...

Políticas educativas e iliteracia científica

A escola massificada de hoje está, portanto, mais burocratizada, mais pragmática, mais folclórica, mais niilista, mais cínica e menos séria. Só as (virtuais) estatísticas do sucesso educativo interessam.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Anda por aí muito boa gente extasiada com as políticas educativas deste Governo nos domínios dos ensinos Básico e Secundário. Esses cidadãos afiançam, com o mesmo desembaraço com que comentam o rescaldo da jornada futebolística do fim de semana (e, evidentemente, também com a mesma devoção com que sempre se empenharam na educação dos seus filhos ou assumiram as suas responsabilidades cívicas, académicas e laborais), que, depois de disciplinada e expurgada a turba de professores, o país apresenta agora esplêndidas condições para combater o seu humilhante insucesso escolar e cívico e transformar a escola num espaço democrático celestial. Depois do caos, o cosmos; Deus fez o Homem, e Sócrates, e a sua acólita, "finlandizaram" a educação em Portugal...

Porém, esta apologia de Sócrates não resiste a várias críticas cartesianas. Entre algumas que já dirigi a estas reformas quase só estetizantes e economicistas do sistema educativo, há uma que devia também inquietar os nossos exemplares (e fascinados) cidadãos, e que está, de resto, bem plasmada no Decreto-Lei n.º 200/2007 que regulamenta o concurso para professores titulares. Refiro-me ao facto de este Governo ter, literalmente, varrido a excelência do conhecimento científico do sistema educativo básico e secundário.

Expliquemo-nos. As novas medidas ordenadas por este Governo nada propõem de inovador no domínio da formação contínua científica dos professores. Por exemplo, não preveem a possibilidade de o Ministério da Educação (ME) assinar convénios com as universidades e os politécnicos no sentido de estas instituições de ensino superior abrirem cursos certificados de atualização científica (ou seja, com temas/conteúdos proficientes, nos domínios das diversas áreas disciplinares, bem estruturados e lecionados por formadores academicamente muito bem credenciados) destinados a professores dos ensinos Básico e Secundário. Assim, para obter os créditos que a sua formação exige, os professores lá terão de continuar a frequentar demasiadas vezes cursos inúteis ou mesmo absurdos sobre esotéricas temáticas pedagógicas, que, como todos sabemos, pouco ou nada contribuem para melhorar as suas competências didáticas e científicas.

As novas deliberações sobre as questões da assiduidade e progressão na carreira ordenadas por este Governo desmobilizaram os professores de frequentar congressos e/ou conferências - na qualidade de assistentes ou mesmo como congressistas - que versem sobre as suas áreas de lecionação. E, no concurso de acesso a professores titulares atrás mencionado, todos os cargos burocráticos, de natureza executiva e pedagógica, desempenhados pelos docentes nas suas escolas são valorizados, ao mesmo tempo que é desqualificada toda a produção científica dos professores, com a honrosa exceção dos mestrados ou doutoramentos "em Ciências da Educação ou [só em última instância] em domínio diretamente relacionado com o grupo de docência" (sic). Nomeadamente, neste concurso, a autoria de livros da área de formação dos docentes e de artigos editados em revistas científicas, a apresentação de comunicações em congressos organizados por instituições consagradas, a obtenção de cursos de pós-graduação e mesmo a participação ou coordenação de projetos mais ambiciosos de índole didático-científica (com exceção da autoria de programas ou manuais escolares) valem, rigorosamente, zero (!).

Com tal política educativa, este ME deixa bem claro as suas prioridades: desprezar e penalizar os docentes com maiores preocupações (ou mesmo excecionais habilitações) científicas e glorificar os "docentes burocratas" - especializados em gestão escolar e, em muitos casos, em "Eduquês". Acontece que não é admissível pensar o ensino fora do binómio Ciência/Pedagogia. Importa, pois, compreender que não há elixires pedagógicos que possam salvar um professor que não domine os conteúdos da disciplina que leciona, assim como, num outro registo, não existem panaceias que possam iluminar um professor que prescinda de adequada formação humanística e cultural para dirigir uma escola. Por outras palavras, a leitura, a escrita, a investigação e a reflexão, a formação e a atualização científicas devem constituir para qualquer professor práticas contínuas, sem as quais ele arrisca tornar-se num mero animador social e numa espécie de vendedor de "banha de cobra", sempre pronto a oferecer aos seus incautos alunos, por detrás de uma redundante retórica balofa e de um exímio folclore "pedagógico", um saber sem base científica ou uma ciência obsoleta.

A escola massificada de hoje está, portanto, mais burocratizada, mais pragmática, mais folclórica, mais niilista, mais cínica e menos séria. Só as (virtuais) estatísticas do sucesso educativo interessam. E, em nome deste dogma intangível, este ME resolveu, de facto, abdicar da cultura científica e da educação cívica dos seus alunos e até dos seus professores.

Luís Filipe Torgal
Professor de História do 3.º ciclo do Ensino Básico

Luís Filipe TorgalProfessor de História do 3.º ciclo do Ensino Básico no Agrupamento de Escolas Brás Garcia de Mascarenhas; Mestre em História Económica e Social Contemporânea; Colaborador de investigação do CEIS20 da Universidade de Coimbra
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.