A PALAVRA A...

A Escola Portuguesa em 2050

Naqueles tempos, o vanguardista Nuno Crato (em 2011) sonhou - e viria a concretizar - o ideal de escola que hoje vivemos e ao qual devemos estar gratos.
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"a ironia é o primeiro indício de que a consciência se tornou consciente"
Fernando Pessoa in O Livro do Desassossego


Finalmente vivem-se dias de estabilidade nas escolas portuguesas e não poderá ser esta pequena confusão em torno do "professor perfeito" (aplicação informática que pode substituir o professor) que nos devolverá dias de convulsão e facilitismo vivido na primeira década do século XXI. Valerá a pena uma pequena contextualização histórica.

Naqueles tempos, o vanguardista Nuno Crato (em 2011) sonhou - e viria a concretizar - o ideal de escola que hoje vivemos e ao qual devemos estar gratos. Quando chegou a ministro da Educação havia uma minoria poderosa que defendia uma escola que desprezava a memorização e questionava a fiabilidade e objetividade dos exames. Triunfava um discurso de facilitismo que acreditava ser possível uma escola (feita por professores, técnicos e funcionários) adequar-se a cada aluno e às suas especificidades, quase como se fossem eles a marcar o ritmo do processo de ensino-aprendizagem. Defendiam, demagogicamente, que tão importante como os conteúdos a transmitir era a relação que se estabelecia com o aprendente, colocando a responsabilidade dessa adaptabilidade no professor e desresponsabilizando o aluno.

Desperdiçavam-se, nesse tempo, milhões e milhões de euros em projectos TEIP (territórios educativos de intervenção prioritária) que chamavam sucesso à erradicação do abandono e absentismo escolar (como se isto não fosse o mínimo obrigatório numa sociedade saudável) e se orgulhavam de melhorar indíces e estatísticas na avaliação interna, quando depois eram desastrosos os resultados nas avaliações externas. Argumentavam, estas escolas, que os seus alunos eram pobres, as famílias desestruturadas e, por isso, partiam em desvantagem em relação a todos os outros, ignorando que essas crianças e famílias tinham na escola a oportunidade de serem melhores cidadãos e terem uma vida melhor e se não o aceitassem, não o quisessem a culpa não era da escola.

Hoje em dia são os alunos que se moldam à escola e não as escolas que se procuram moldar aos alunos, graças a um trabalho contínuo e profundo de Nuno Crato.

Começou por reforçar o peso dos exames na avaliação dos alunos. No 2.º, 4.º, 6.º, 9.º, 10.º, 11.º e 12.º anos os alunos passaram a ser confrontados com exames nacionais, devidamente construídos por equipas técnicas onde a exigência e rigor são os valores que regem o seu trabalho. Rapidamente se percebeu que os alunos portugueses sabiam muito menos do que aquilo que as escolas diziam e que as escolas, elas próprias, andavam a enganar os alunos e os pais avaliando comportamentos e atitudes, valorizando supostas evoluções dos alunos, dando pontos aos alunos que fossem pontuais de forma a inflacionar os resultados académicos. Começaram por ser anos difíceis, com os maus resultados a criarem alguma confusão, mas depois de se clarificar o papel da escola enquanto transmissora de conhecimentos tudo começou por se encarreirar e as pessoas compreenderam que a escola tem de avaliar, com todo o rigor, os conhecimentos adquiridos. Só isso!

De seguida, sem perder tempo com as críticas do eduquês e pareceres de entidades internacionais, encetou um sistema perfeito de meritocracia: as escolas com melhores resultados passaram a receber mais dinheiro para contratar professores ou outro tipo de recursos pedagógicos (computadores, programas informáticos, técnicos especialistas em preparação de exames) e as escolas com maus resultados começaram a ver os seus recursos diminuir. Esta medida teve subjacente uma coerência admirável com um ideal de escola que se centra em priveligiar quem quer e pode (aprender) evitando gastos supérfluos em escolas e alunos que, simplesmente, não querem e estiveram - durante muitos anos - habituados a que professores e escolas fizessem o trabalho por si.

Citei estas duas medidas para contextualizar toda a polémica que hoje se vive pelo decreto-lei que permite às escolas substituir professores pelo recente "professor perfeito". Este sistema informático - em testes há anos - permite aos alunos, através de computadores individuais, níveis de interação nunca vistos, aliados a uma fiabilidade científica que nenhum professor pode ousar. Este novo instrumento pedagógico faz jus ao seu nome já que transmite aos alunos, de forma objetiva e cientificamente inatacável, os conteúdos, testa a aquisição de conhecimentos dos alunos e ainda permite a realização de exames de preparação. A médio prazo, será perfeitamente possível reduzir o número de escolas, já que os pais poderão pagar licenças do programa e permitir que os seus filhos usem o programa em casa sem terem gastos nas deslocações para a escola. Para além das vantagens pedagógicas e científicas já aqui referidas, não é inútil pensar que esta ferramenta trará maior conforto aos jovens porque poderão ficar em casa e o Estado acabará por poupar milhões de euros em estruturas altamente burocráticas e pouco produtivas como são as escolas.

A não ser que a sociedade portuguesa pretenda voltar a uma escola onde os alunos perdiam tempo com aulas de música e artes plásticas e, supostamente, travalhavam competências de estudo e cívicas, julgo que será uma questão de tempo até esta medida ser consensual no nosso sistema de ensino. Muitos foram os que defenderam a escola enquanto espaço de socialização, valorizando o desenvolvimento de competências sociais, relacionais e humanas, quase como se as escolas fossem centros de desenvolvimento psicológico. Ainda por cima, com a inovação tecnológica a que temos assistido, é bem mais relevante ser expert no trabalho com e através do computador do que propriamente com pessoas. Como tal, não devemos perder tempo e dinheiro com o acessório!

Felizmente hoje o currículo escolar está assente em apenas quatro grandes pilares: Português, Matemática, Ciências e Inglês e, nestas quatro áreas científicas, o "professor perfeito" é inigualável, em quantidade e qualidade de conhecimento, por qualquer ser humano. Não tenho a menor dúvida de que é esta exigência, rigor e objetividade que os pais portugueses desejam.

Compreendo que pode parecer assustador aos professores verem a sua profissão desaparecer, mas a história mundial está repleta de exemplos em que profissões nobres se foram extinguindo (o ardina, a datilógrafa e o alfarrabista são apenas alguns exemplos) fruto da evolução tecnológica. Haverá espaço para muitos deles integrarem as equipas técnicas que desenvolvem o programa informático e os restantes terão de reorientar a sua vocação encontrando algo mais útil para eles e para a própria sociedade.

Termino afirmando que este decreto-lei é um oásis numa sociedade desfeita. Nos últimos 40 anos a criminalidade disparou de forma brutal e os biliões de euros que o estado tem de pagar mensalmente em prestações sociais a desempregados demonstram que temos é de apostar em quem quer e pode aprender, sob pena de nem estes 20% conseguirmos salvar da mediocridade. Apelo a todos que pensem bem nas suas ações e opiniões de forma a não colocarem em causa o princípio pelo qual nos batemos (e felizmente estabilizámos na última década): "a escola é para ensinar e não para educar"...
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