A PALAVRA A...

Ser ou não ser inteligente, eis a questão...

No final do 1.º período do 7.º ano o G. tinha 4 negativas e estava perdido no meio de uma turma que era considerada a melhor da escola.
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O G. andava no 7.º ano e passava despercebido no meio da turma. Um aluno bem-comportado, acatando sempre e qualquer ordem dos professores, avesso a qualquer tipo de confusão na sala de aula ou no recreio. A sua caligrafia era horrível, parecia gatafunhos e as notas não eram lá grande coisa. Quando se chegava ao n.º 8 da turma os professores corroboravam quase em uníssono: "é um bom rapaz, mas tem muitas dificuldades. Até se esforça mas não consegue lá chegar, é pouco inteligente... e ainda por cima aquela letra é horrível..."

No final do 1.º período do 7º ano o G. tinha 4 negativas e estava perdido no meio de uma turma que era considerada a melhor da escola. Como nunca se fecha uma porta sem se abrir uma janela, o G. foi integrado numa sala de estudo onde eu e a Alexandra tínhamos organizado e implementado uma dinâmica de estudo muito diferente do registo das aulas. Os colegas iam e até gostavam: "não era seca" e os "setores são fixes", diziam-lhe.

Quem era, afinal, o G.? Haveria algo diferente para lá dos lugares-comuns que se diziam sobre ele e tantos outros jovens das escolas portuguesas? Teria assim tantas dificuldades? E se tinha, quais eram? Ouvia bem? Não compreendia? É que dentro da expressão "tem dificuldades" cabe tanta coisa...

Com o tempo percebi que G. era um rapaz tímido, acomodado ao "não consigo", "tiro sempre negativa a História", "não vale a pena." Escondido no meio de tantos bons alunos tinha-se conformado e respondia exatamente de acordo com aquilo que era esperado dele (não seremos todos assim?) e, ainda por cima, era esperado pouco, muito pouco.

- "Aposto contigo que se estudares aqui, durante uma semana, para o teste de História tiras positiva..."

Este foi o repto que lhe lancei e que pode ter mudado muita coisa. O G. aceitou por conformismo e não por convicção, mas veio todos os dias durante aquela semana. Criou-se uma relação de proximidade, de empatia, de ajuda - tal qual a relação pedagógica deve ser - e o G. conseguiu uma positiva (pequenina) no teste de História. No futebol diz-se que o que custa é marcar o primeiro golo, depois disso é como o Ketchup. No caso do G. assim foi.

Hoje é um dos melhores alunos da turma, já no 8.º ano, sem negativas e com vários 4 no final do 2.º período. É um jovem adolescente responsável que ajuda os alunos mais novos a estudar na sala de estudo, ativo e líder da turma onde outrora passava despercebido mas, acima de tudo, é um jovem que demonstrou aos adultos que a inteligência não é uma questão de se ter ou não se ter e que mal vai a escola que considera a inteligência como algo que existe ou não existe.

No espaço temporal entre ser, apenas, um aluno esforçado (eufemismo para pouco inteligente) no 7.º ano e ser um dos melhores alunos da turma no 8º ano muita coisa aconteceu, muitas horas se trabalharam, muita conversa se desenrolou. Foi preciso dar confiança ao G., mostrar-lhe - em pequenas coisas - de que era tão capaz quanto os outros. Dar os parabéns quando fazia bem os exercícios, colocá-lo em posição de destaque positivo perante os colegas, pedir a ajuda dele em tarefas de alunos mais pequenos, elogiá-lo, tudo isto são pequenos nadas que se tornam muito na cabeça dos jovens que temos à nossa frente. Estudou-se muito, mas acima de tudo evitou-se mostrar o conhecimento como um monstro, mas antes como algo do qual até poderíamos retirar algum prazer. Hoje, fazer os objetivos de História é a tarefa mais simples e até menos interessante do processo de estudo porque G. aprendeu que a "História não se decora, compreende-se..."

Como defende Agostinho Ribeiro, tudo o que de realmente importante acontece em educação, acontece na relação pedagógica e foi por aqui que se ganhou o G. Mas também é por aqui que se perdem inúmeros G. A escola tem a missão de transmitir um capital cultural (conhecimento, informação, conteúdos) que permita às crianças e jovens tornarem-se cidadãos educados e participativos. Todavia, também tem a responsabilidade de educar, de orientar e ajudar a construir um percurso para que esse capital cultural seja verdadeiramente útil (ao indivíduo e à sociedade) e, desta forma, ninguém pode orientar e construir percursos se não conhecer o caminhante, de onde vem, para onde quer ir, porque quer ir. Não chegam as respostas tipificadas, não bastam as estratégias baseadas no cliente-ideal, é urgente conhecermos os nossos alunos, perceber as razões dos seus resultados e comportamentos. Sem esta disponibilidade, muitos G se continuarão a perder.
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