A PALAVRA A...

Porque devo cumprir horários?

Foi então que surgiu uma ideia simples, demasiado simples pensou-se no início, que passava por monitorizar a assiduidade e pontualidade da aluna através de um registo escrito do seu horário de chegada à escola.
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Era esta a pergunta que assolava a cabeça de FR todas as manhãs. A mãe falta ao trabalho sempre que lhe dói a cabeça, o pai está desempregado e não tem de cumprir horários e apesar de ser a única em casa que colocava o despertador a tocar, não raras vezes cedia ao quentinho da cama para se virar para o outro lado e chegar à escola só para a segunda aula. Aos 14 anos está no 8º ano e se conseguiu chegar aqui com consecutivos atrasos aos primeiros tempos da manhã não será agora que a sua relação com a escola mudará, pensava ela.

Chamaram-se os pais, falou-se com a aluna, mas nada mudou este comportamento. Por um lado, ela já tinha idade para se responsabilizar pelo cumprimento dos horários, por outro lado, máxima do senso comum, filha de peixe sabe nadar. Mas afinal o que é que nós queríamos? Qual o nosso principal objetivo neste caso? Resignarmo-nos ao "não podemos fazer nada porque se os pais não fazem, não seremos nós..."?

Não! O que nós queríamos era algo bem mais simples: que a FR chegasse a horas para não perder aulas importantes e habituar-se a algo básico na vida como é cumprir horários. Foi então que surgiu uma ideia simples, demasiado simples pensou-se no início, que passava por monitorizar a assiduidade e pontualidade da aluna através de um registo escrito do seu horário de chegada à escola.

Criou-se uma ficha muito simples, com os dias do mês, um espaço para registar a hora de chegada da aluna e um outro para a minha assinatura como o responsável pela confirmação dessa hora de chegada à escola. Quando se confrontou a FR com esta estratégia, a reação não foi positiva, pelo contrário: "vai andar a gastar papel para nada..."

O mais revelador nesta história é a alteração do estado de espírito da FR ao longo dos três meses em que isto tem sido aplicado. Nos primeiros momentos chegava estremunhada, rabujenta e sempre a protestar por ter de vir assinar a ficha. Resmungava e pragejava porque não compreendia o que ganhava com isto. Mas nunca encontrou uma resposta na mesma moeda. Encarei sempre essa atitude como um desabafo, compreendia, aceitava e até brincava com este mau humor. E esse registo foi mudando, ficando mais simpática, mais sorridente. Dia após dia estávamos a conseguir que ela chegasse a horas, até que...

...a FR não apareceu. Procurei o seu número de telemóvel junto dos colegas e liguei-lhe: "que se passa? Ficaste doente? Está tudo bem?" Do outro lado ouviu-se uma voz ensonada: "Setor desculpe, daqui a pouco estou aí..."

Ela percebeu que o telefonema tinha sido de preocupação e não de perseguição, compreendeu também que, afinal, aquele era um objetivo comum, não apenas dela, éramos uma equipa. E, sinceramente, naquele dia não me interessou saber porque ela tinha ficado na cama. Podia ser preguiça, podia ter assistido a mais uma cena de discussão intensa entre os pais durante a noite, podia estar maldisposta, podia ser muita coisa, mas acima de tudo não quis perdê-la, não podia deixar que a falha num dia deitasse tudo a perder.

Perdeu-se uma batalha mas não a guerra e a FR voltou rapidamente a vir todos os dias à escola e a chegar a horas. Mais, já que chegava 10, 15 minutos antes das aulas, sentava-se ao pé de mim e ficávamos à conversa sobre a escola, sobre as vidas, sobre o futebol, sobre qualquer coisa. O rosto e a expressão de FR foi-se transformando e tinha-se tornado bem mais agradável. A estratégia foi repetida para mais dois colegas, que seguiram o mesmo processo, o mesmo caminho e hoje somos quase o grupo que abre a escola todos os dias.

Hoje o desafio é mais meu do que delas porque tenho de chegar à escola 20 minutos mais cedo porque a vontade delas em ver a ficha assinada, os dedos de conversa trocados antes das aulas e até alguma competitividade entre elas faz com que cheguem meia hora antes das aulas. Tenho aceitado esse desafio, mas já não consigo ser o primeiro a chegar...

Porquê? Não sei bem. Será pela ficha? Pela assinatura? Por querer chegar primeiro? Pela oportunidade de conversarem descontraidamente com um "setor"? Não sei, mas chegam a horas, enquanto os pais ficam a dormir... Compreenderam que cumprir horários é "normal" e que tem ganhos visíveis no seu rendimento académico. Esta estratégia resultará com todos os jovens que não cumprem horários? Duvido, mas alguma coisa há de ser possível fazer...
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