A PALAVRA A...

Políticas educativas: continuar a apostar nas medidas remediativas ou atuar preventivamente?

A escola não é só um espaço de escolarização é também um espaço de socialização e de desenvolvimento, e não foram as crianças ou as famílias que o ditaram, foi a evolução social e a sua ratificação legislativa.
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A implementação da escola de massas, a consagração do direito de acesso à escolarização a todas as crianças e jovens, através da implementação da Lei de Bases do Sistema Educativo e o recente alargamento da escolarização para 12 anos trazem indubitavelmente deveres do Estado, para com as crianças, os jovens e as famílias.

Todos os anos, em setembro, milhares de crianças e jovens preparam-se para iniciar mais um ano letivo. A escola será durante 10 meses o seu espaço privilegiado de vida, aí as famílias e a sociedade em geral esperam que eles aprendam novos conteúdos científicos, mas que também aprendam a viver em conjunto, os valores da comunidade, que aprendam a gerir as suas emoções e os seus comportamentos. Por isso, a escola não é só um espaço de escolarização, é também um espaço de socialização e de desenvolvimento, e não foram as crianças ou as famílias que o ditaram, foi a evolução social e a sua ratificação legislativa. Este papel que o Estado foi assumindo no crescimento e desenvolvimento das crianças e jovens exige que a escola adote um modelo de formação que seja lato, ou seja, um modelo de organização da educação que não seja exclusivamente baseado nas disciplinas científicas e nos professores como únicos atores escolares. Este modelo não poderá certamente responder às demandas de uma escola a tempo inteiro durante 12 anos.

O insucesso escolar, o bullying, a depressão, o mal-estar docente, a indisciplina são problemas que atualmente afetam a maioria das escolas públicas e várias foram as soluções de remediação propostas para a sua resolução: aulas de estudo acompanhado, apoio ao estudo, aulas de educação para a cidadania, formação contínua de professores, aplicação de castigos.
As questões que colocámos são as seguintes: a vida nas escolas melhorou? Conseguiram resolver-se os problemas? A resposta é sempre a mesma: não! Na realidade, estas medidas não resolveram nada, porque estas são medidas de âmbito curativo. É a aplicação do modelo médico à escola, quando a escola adoece injeta-se uma medida que se espera venha a ser curativa. Mas mesmo a medicina contemporânea defende que as medidas face aos problemas que já são conhecidos devem ser eminentemente preventivas, e não são estas medidas que tenho visto os sucessivos governos adotarem. Será que adotar medidas preventivas dos problemas não seria a melhor solução, mesmo em termos económicos? O atual Ministério da Educação tem vindo a mudar algumas das "prescrições" adotadas pelos anteriores governos, agora o foco está voltado para medidas que comprovadamente já tinham sido abolidas há muitos e muitos anos e que se foram revelando infrutíferas e que são próprias de uma escola de elites e não de uma escola de massas democrática: abolição de disciplinas de apoio ao estudo, aumento da carga horária de determinadas disciplinas científicas consideradas como nucleares, o fecho de escolas com poucos alunos, a colocação dessas crianças a muitos quilómetros de casa, o aumento do número de alunos por turma e a constituição dos mega-agrupamentos. Se realmente acreditarmos que a educação é para todos e que todos temos a ganhar com ela, então o modelo de formação tem de ser diferente. As escolas têm de ser comunidades educativas centradas essencialmente nas pessoas e nos seus contextos sociais. As escolas precisam de criar condições para um acolhimento personalizado das crianças (que já não são muitas atualmente) e não será certamente com turmas de 30 alunos que tal será conseguido. Por outro lado, temos os professores que ainda se continuam a formar e a integrar profissionalmente como especialistas disciplinares, não desenvolvendo na sua formação competências que lhes permita assumir uma identidade profissional múltipla que lhes permita responder a questões de organização administrativa, curricular, social e psicológica. Se existem profissionais especializados nestas áreas, porque é que as escolas não os integram? Será por questões económicas? E o dinheiro que se gasta com a manutenção desses profissionais no desemprego, com o insucesso repetido dos alunos, com as faltas que os pais dão ao emprego para irem tratar dos problemas dos filhos (indisciplina, depressão, vítimas de bullying), com as baixas médicas dos professores provocadas pelo burn out profissional), com a deslocação dos alunos da periferia para os grandes centros, com a desertificação do interior do país e consequentemente com a baixa de natalidade.

O pior de tudo é que parece que estamos sempre a lidar com um corpo social doente. Porque não apostar na prevenção antes que as medidas curativas se transformem em cuidados paliativos, não só da escola mas de toda a sociedade?
Cristina SousaDoutoranda em Ciências da Educação pela FPCEUP e Mestre em Educação e Currículo pela mesma instituição. Foi docente na Escola Superior de Educação do IPG. É atualmente técnica superior de educação na Câmara Municipal de Valongo.
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