A PALAVRA A...

O David e o Golias

A educação em casa oscila entre os mimos e pancadaria exagerada e a "escola da rua" fez sempre do Golias o escudo físico das batalhas diárias que tem de travar.
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O Golias foi sempre maior, mais forte, mais crescido que os outros. Esta dádiva da natureza (que com o passar dos anos se transformou quase em doença) deu-lhe a possibilidade de encontrar na força, na violência, na agressividade as melhores defesas para um mundo que não lhe tem facilitado as coisas. A educação em casa oscila entre os mimos e pancadaria exagerada e a "escola da rua" fez sempre do Golias o escudo físico das batalhas diárias que tem de travar.

Em casa a violência doméstica tem-se reproduzido, começou entre pai e mãe, nunca contou como tal entre pai e filhos e já se arrasta entre cunhado e irmã. A comida foi sempre um refúgio do Golias, vê-lo comer prova que, mais do que a fome, ele sacia outro tipo de necessidades ao engolir três ou quatro croissants seguidos. Por outro lado, pagar essa comida, proporcionar essa comida, orgulhar-se do crescimento brutal do Golias servia para a família como a prova de que o tratavam bem. O menino tem fome, come!

O cinto, a porrada num corpo nu, os castigos em pé e ao frio, o insulto gratuito eram o outro lado da moeda. O menino a quem era dada comida de forma desmedida era o mesmo a quem se pedia que servisse de guarda-costas da irmã em horas de maior descontrolo do cunhado. O rapaz de quem se dizia ser, apenas, um bébé grande era o mesmo a quem se exigia que fosse polícia de todos os colegas que pudessem ter feito algum comentário, brincadeira ou provocação aos seus sobrinhos.

Quando chega à escola, no 5.º ano, a uma escola - ainda por cima - onde existe fama de um ambiente agressivo e violento, do salve-se quem puder, do triunfo do mais forte, Golias responde como era esperado. Bate nos colegas se as coisas não correm à sua maneira, responde torto aos professores, não acata os conselhos e ordens dos funcionários e tudo isto cresce de forma exponencial sempre que alguém procura demonstrar - de forma similar à dele - que tem autoridade sobre o Golias. O 5.º ano é um desastre, são poucas as aulas em que consegue ficar até ao final, são poucas as disciplinas a que tem positiva e a escola não sabe o que fazer com o Golias.

A Alexandra era uma técnica da escola. Aos 26 anos tinha chegado a esta escola com uma enorme motivação, pois tinha sonhado com este tipo de trabalho nos últimos seis, sete anos da sua vida. Era uma mulher de aspecto frágil, várias vezes passível de ser confundida com as alunas mais velhas da escola, mas poderosa na relação com os alunos. Tinha uma paciência do outro mundo, uma capacidade de persistir onde tantos outros tinham desistido e uma paixão emocionante pelos miúdos que acompanhava. As circunstâncias aproximaram-na do nosso vilão. Hoje, já não está na escola, mas dá graças ao acaso por lhe ter dado a possibilidade de conhecer que dentro do Golias existia um David.

Foi Alexandra quem conheceu e deu a conhecer o David, alguém que dentro do mesmo corpo de Golias era meigo e afável, compreensivo face ao papel que os adultos têm na escola, estudioso e empenhado, humilde e reconhecedor dos seus erros. Um David que conseguia vergar aquele enorme corpo e tornar-se amoroso, carinhoso, sensível. Como o conseguiu ela?

Foram muitas batalhas, muitas desilusões, algumas derrotas, mas, acima de tudo, Alexandra encontrou uma outra forma de abordar o Golias. Deu-lhe atenção e carinho como talvez ele ainda não tivesse encontrado fora da escola. Esteve diariamente atenta a todos os passos que ele dava na escola. Criou momentos de partilha entre os dois, de conhecimento mútuo e que permitiram perceber que se mais pessoas estivessem disponíveis para conhecer o David, talvez o Golias não aparecesse. Ensinou-o a moderar atitudes, comportamentos e formas de expressar o que pensava. Aproximou-o de outros professores, mediou conflitos, ouviu coisas que não queria ter ouvido e sentiu uma proximidade que não faz parte de qualquer descritivo funcional.

Alexandra conquistou David e ensinou-o a, ele próprio, lidar com o Golias, porque nunca desistiu. Perdeu-se em horas e horas de conversas com ele, com o pai, com a mãe, com a irmã, na escola, na rua, ao telefone. Inventou fichas de gestão comportamental, deu mimo quando ele precisava, berrou quando não havia alternativas. Acreditou nele, defendeu-o quando todos o tinham deixado sozinho, mas responsabilizou-o pelos seus atos como nunca ninguém tinha tido coragem para o fazer. Conseguiu organizar-se de forma a poder estar, todos os dias, algum tempo sozinha com ele, a estudar, a conversar, a pensar, a rir, a chorar, a educar...

Nos dois anos seguintes o Golias foi desaparecendo e deu espaço a um David que não só passou de ano, como conseguiu chegar ao 8.º ano transitando sem negativas e registando um empenho assinalável no estudo.

A receita parece simples, aqui escrita desta forma. O problema é que nem sempre os números são compatíveis com a qualidade e os números, cada vez mais apertados, atiraram com a Alexandra para o desemprego, deixando o David órfão...

Há ganhos que não se perdem e por isso ainda vemos o David pela escola, contudo, o Golias está muito mais presente do que foi habitual nos últimos três, quatro anos. Falta-lhe a Alexandra, tem 8 negativas e parece perdido... O que fazer?

Meter ficha,
tentar outra vez, outras pessoas, outros métodos, a mesma disponibilidade, mas temos de contar à partida que vamos encontrar alguém ressentido e traído por uma vida que lhe continua a ser madrasta...
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