A PALAVRA A...

Classificar é preciso!

O assunto estava, pois, encontrado e correspondia a um dos temas mais quentes daquela época: o da avaliação. Melhor: o da 'avaliatite', doença endémica que grassava por tudo o que era atividade humana.
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Quando a Direção-Geral do Ensino Secundário me convidou para orientar uma sessão de formação de professores, eu tomei as minhas precauções, a principal das quais era a de não apresentar, previamente, um plano da sessão. E, o que, até aí, nunca tinha levantado problemas, passou a levantá-los, pois, agora, as sessões obedeciam a uma formatação bem definida, em que objetivos, conteúdos e atividades tinham de vir devidamente discriminados. Achei graça e não pude deixar de comentar: 'Então foi para isto que eu andei a pregar os grandes princípios da organização curricular... Para me tramar...' Mas acabámos por chegar a acordo: no final da sessão, eu escreveria uma síntese do acontecido.

Às duas da tarde do dia aprazado, lá estava eu na escola secundária de Lisboa, onde ia decorrer a ação de formação - sem ter tido tempo para almoçar, tão intenso tinha sido o meu trabalho burocrático, nessa manhã. Quarenta, quarenta e cinco pessoas na sala, ou a entrarem aos bocadinhos... Com cuidado, fui-lhes dizendo que iríamos conversar sobre os assuntos que eles quisessem. Que me pusessem problemas, dificuldades, enfim, temas que gostassem de discutir. Portanto, não via qualquer vantagem em tomarem notas do que eu estava a dizer, como já estavam a fazer. Eu é que teria de tomar notas, para lhes poder responder. Como ninguém se pronunciava (ou recolhia o 'material pedagógico'), lá fui debitando umas coisas, a ver se desbloqueava a situação. Alguns dos meus ouvintes, que já me conheciam, pousaram as canetas e aguardaram tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos; outros, mais moços, continuaram a tomar os seus apontamentos e a olharem-me com alguma desconfiança. 'Para grandes males, grandes remédios' - disse eu. E continuei: 'Como parece que ninguém quer começar, eu vou pedir a um 'voluntário' que me diga...' Mas não concluí a frase.

Um dos professores mais jovens levantou o braço e informou: 'Não é preciso, começo eu. Queria que me dissesse quais os objetivos, os conteúdos desta sessão.' Alguma agressividade na voz, um sorriso de superioridade nos lábios. Pacientemente, voltei a explicar o que dito já fora. E a condescender um tanto: 'Se quiser, se quiserem, poderemos fazer, no fim, e em conjunto, uma síntese do que aconteceu.' A minha observação irritou-o profundamente: 'Desculpe, mas os objetivos têm de ser definidos previamente. O que disse, sobre a sessão, não são objetivos, até porque não foi suficientemente explícito e, portanto, não se podem operacionalizar.' Eu estava siderado com esse rigor de neófito curriculista: 'Mas para que quer operacionalizar os objetivos?' Ele continuava com o seu sorriso de detentor da verdade: 'Para avaliar esta lição!' O meu espanto subiu um pouco mais: qual lição, a minha? Portanto, era a mim que ele queria avaliar... Mas se a dita 'lição' ia ser construída por ele, pelos seus colegas, por todos nós, que sentido fazia o que ele estava a propor? Seria a si próprio e aos colegas que ele pretendia aplicar a sua avaliação? A resposta veio fulminante: 'Não, de modo algum, é o professor que eu tenho de avaliar!' O diálogo tinha atingido o seu nível mais patético: 'E para que me quer avaliar?' Ele, triunfante, a espetar a última bandarilha: 'Todos temos que prestar contas! Ninguém pode estar acima desse princípio, nem um professor universitário. Já não estamos no tempo do fascismo. Agora, vivemos numa sociedade em que a transparência se impõe, em todas as situações!' A sua voz cantava a vitória que lhe ia na alma: tinha dado uma lição a um velho professor da Universidade, nascido e criado em tempos de fascismos. Eu, claro, não me sentia menos realizado: o mote da 'lição' estava dado!

O assunto estava, pois, encontrado e correspondia a um dos temas mais quentes daquela época: o da avaliação. Melhor: o da 'avaliatite', doença endémica que grassava por tudo o que era atividade humana. Por isso, eu quis saber como é que ele me pretendia avaliar: quais os critérios, os parâmetros, os instrumentos dessa avaliação. Mas o seu processo de avaliação resumia-se ao preenchimento de uma ficha estereotipada, fornecida pelos serviços do Ministério da Educação, que, ao fim e ao cabo, incidia apenas num aspeto: se os ouvintes tinham gostado (ou não) daquilo que tinham ouvido...

A desmontagem daquele 'instrumento' e a sua falta de rigor metodológico constituiu a primeira abordagem da temática. O outro aspeto, a seguir desenvolvido, foi mais de ordem pessoal: declarei ao meu ouvinte, ansioso em se transformar no meu 'avaliador', que eu não o autorizava a proceder a qualquer espécie de avaliação a meu respeito, até porque eu também não o ia avaliar.

As coisas pareciam estar a esclarecer-se, mas havia alguém que ainda não estava totalmente convencido: e os conteúdos, não lhes poderia dar uma ideia? Difícil, senão impossível: pois se eles ainda não me tinham dito o que queriam que eu abordasse... Os conteúdos, em última instância, seriam eles mesmos e a sua 'circunstância pedagógica' - a deles e a minha, enquanto seu interlocutor. Conforme se desenvolvesse essa interlocução, assim se poderiam ir carreando elementos para a elaboração de uma síntese.

A reflexão que se seguiu pareceu-me extremamente válida e centrou-se nos estereótipos de que é feita a nossa vida (pessoal, profissional), e nos modelos que utilizamos para a abordarmos. Modelos que assumem a forma de instrumentos e processos estereotipados, mas que nós consideramos como os mais rigorosos e passíveis de aplicação a todas as situações. Uma espécie de pronto a vestir pedagógico, que, muitas vezes, nada tem de científico, na medida em que a rigidez é o oposto do rigor de que o método científico deve ser feito. E, no caso da avaliação, as coisas ainda eram mais nítidas: uma realidade só se pode avaliar quando se utiliza um instrumento que foi concebido para a captar. Não será, portanto, com uma 'planificação de ferro' (que tudo prevê e que tudo quer controlar) que se pode captar o 'real', a derramar-se na sua fugacidade e a concretizar-se na sua especificidade.

A discussão parecia não ter fim e já passava das seis da tarde, quando eu propus que parássemos e tratássemos de proceder à síntese final. Foi nesse momento, que o meu interlocutor da fase inicial da sessão voltou a levantar o braço, para declarar: 'A síntese, agora, já não tem importância, o que eu queria era saber quais eram os objetivos da lição.'

Peguei na pasta e fugi porta fora, à procura do primeiro táxi, que me conduzisse à minha faculdade, onde me aguardava um monte de papéis, à espera que alguém os despachasse. Os papéis que me ajudariam a esquecer um fracasso mais da minha já longa carreira de pedagogo. De aprendiz de pedagogo...
Albano EstrelaProfessor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
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