A PALAVRA A...

PING-PONG

E tem sido esse o jogo que escolas e famílias se têm prestado a fazer, com demasiada frequência, de forma sucessiva e sem nunca perderem essa estranha forma de alento.
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PING. Ouço os professores. Lamentam-se. Lamentam-se, porque não reconhecem aos pais aquele empenhamento que seria de esperar no percurso educativo dos seus filhos. Falta-lhes quase tudo: interesse pelas atividades escolares, apoio aos trabalhos de casa, conhecimentos, autoridade. Alguns são mesmo negligentes. Uns quantos, a minoria, simplesmente não são flor que se cheire. Aquiesço. Nem me atrevo a rebater. O argumentário é tão desprovido de contradições, seja de docente para docente ou de escola para escola, que a minha costela de investigador criminal me diz baixinho que tanta consistência nos depoimentos só pode querer dizer uma coisa: é tudo verdade.

PONG. Eis que ouço, em resposta, os pais. Do outro lado, devolvem as acusações. Afinal, são os professores que não apoiam devidamente os alunos quando estes têm dificuldades, que lhes enchem os cadernos pautados, muito para lá das margens, com trabalhos de casa, que lhes telefonam apenas quando há alguma falha a apontar, mas nunca quando algo de bom ou surpreendente acontece ou que tomam o seu filho ou sua filha de ponta. Novamente, a lupa de detetive (amador, é certo) não encontra vestígios de inconsistência. Presumo que também deve ser tudo verdade.

A galope, irrompe a Lógica campo adentro, de armadura reluzente e lança apontada ao cerne do problema: apenas uma das versões poderá ser verdadeira. Contradigo a Lógica e sei como arrisco, porque tem uma lança demasiado comprida e afiada. Resisto. Não sucumbo, porque ambas as visões me parecem, de facto, verdadeiras. Qualquer PING precisa do seu PONG, já que só juntos perfazem a aritmética perfeita de um PING-PONG. E tem sido esse o jogo que escolas e famílias se têm prestado a fazer, com demasiada frequência, de forma sucessiva e sem nunca perderem essa estranha forma de alento. De tal modo que nem parece haver tempo sequer para que haja bola fora e respetiva reposição.

Vistas as coisas do lado das escolas, o desânimo perante a fraca adesão aos apelos (ou exigências) de participação é natural, mas pouco refletido. Os anos letivos sucedem-se e apenas as queixas se amplificam, talvez acompanhadas de uma falta de participação parental crescente. Já o modus operandi não conhece qualquer mutação. As escolas continuam, predominantemente, a propor uma interação burocrática com os pais, assente na verdade absoluta de que estes conhecem, percebem, descodificam os significados do que é a educação atual. Ora, a história recente da escola pública é, sobretudo, isso mesmo: recente. Tão recente que uma parte muito importante dos pais com défice de participação na vida escolar dos filhos não foi devidamente escolarizada. Pior, o legado que um modelo de escola reprodutivo perpetuou foi a memória que esses mesmos pais têm dos seus próprios percursos escolares, em que o insucesso foi marcante. E para os que dirão que se acabou de falar em eduquês, então prestem bem atenção aos pais, quando os receberem numa sala de aula, com as carteiras metralhadas em fila. O não verbal deles dirá tudo, para quem quiser vê-lo, como é óbvio. Já do lado dos pais, escasseia a aspiração, uma esperança mobilizadora que abra caminhos aos filhos, que lhes proponha superação. Por vezes, falta em igual medida o acesso ao carácter simbólico da escola enquanto possível rutura social em sentido ascendente. Aqui e ali, há mesmo um indubitável desinteresse.

E perante isto, quais têm sido as soluções? Pelo menos três: formalizar, formalizar e formalizar! O mesmo é dizer que se tem insistido, por um lado, na fragmentação da raiz comunitária das escolas, a par da sua aglomeração em espaços maiores e mais impessoais, numa comunicação cada vez mais intermediada por convocatórias, pautas de avaliação ou cadernetas e em currículos que respeitam cada vez menos as identidades locais e com ligação às próprias heranças familiares. PING. Por outro lado, reduz-se o associativismo parental, importante como deveria ser, a uma plataforma de participação exclusiva e não inclusiva, uma espécie de clube privado a que se acede em determinadas condições. PONG.

Como sair desta jogada repetitiva? Ao que sei, essa necessidade tem dado lugar a extensos estudos e a conclusões bastante elaboradas. Por mim, limito-me a pensar em formas de organização cooperativa das escolas, para me (vos) perguntar: quantas associações de pais e professores conhecem? Por mim, conheço bem poucas.
Francisco SimõesLicenciado em Psicologia pela Universidade de Coimbra e mestre em Ciências Sociais pela Universidade dos Açores.
Atualmente encontra-se a concluir um doutoramento em Psicologia Clínica da Família, pelas Universidades de Coimbra e de Lisboa.Os seus interesses centram-se na tutoria escolar, relação escola-família e motivação para a mudança em contexto escolar. Tem coordenado projetos sociais e educativos destinados a jovens em risco na Região Autónoma dos Açores e em Portugal continental.
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