A PALAVRA A...

Não fui eu!

A culpa, a verdadeira, é sempre dos outros. Nós somos as vítimas; 'eles', os nossos algozes.
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Quando chegava a casa, ao fim da tarde, à noite, com a pasta a pesar-lhe do braço direito e um toque de esperança de sossego a confortá-lo, acontecia sempre algo que o desconcertava. A mulher saía-lhe ao corredor, a querer saber porque não tinha trazido o que ela tanto lhe recomendara; os filhos vinham ao seu encontro, a perguntarem onde estavam os chocolates ('Ó pai, és sempre o mesmo! Esqueces-te de tudo'); a empregada pouco dizia, mas insinuava que as coisas, assim, não estavam bem ('Agora lá tem a velha de ir lá abaixo, ver se a padaria ainda está aberta'). A todos ficava ele, pois, a dever alguma coisa. A todos, sim, até ao cão, que lhe saltava à volta, quando ele entrava, mas que rapidamente transmutava os latidos da saudação em rosnares ameaçadores, ao verificar que ele trazia as mãos vazias. Assim, a pouco e pouco, o regresso ao lar, doce lar, ia-se transformando em pesadelo. Até um dia. O dia em que abriu a porta e, antes que alguém lhe dissesse alguma coisa, gritou: 'Não fui eu!' Ninguém respondeu. E ele repetiu, em voz ainda mais alta: 'Não fui eu!' Ao princípio, não compreenderam o que ele queria dizer: 'Não foste tu, o quê? O que é que aconteceu?' E ele a explicar, perentório: 'Não sei, nem me interessa! A partir de hoje, acabou-se o culpado!' Custou-lhes a entender o sentido (e o alcance) de tanta determinação, mas, com o decorrer dos dias e a persistência da sua fixação em negativa tão radical, acabaram por deixá-lo em paz. E, assim, se alterou o esquema de relações naquela família.

Esta história, decorrente de uma situação real, contei-a eu aos meus alunos de uma cadeira de Mestrado em Avaliação em Educação. Não para fazer a apologia da irresponsabilidade (evidentemente...), mas para lhes falar do sentimento de culpabilização que atravessa a sociedade e o sistema educativo, enquanto sua parte integrante. 'É a nossa velha culpabilização judaico-cristã', especificou um dos meus ouvintes. Hesitei em concordar, pois parece-me ser algo de bem mais profundo do que um simples traço de carácter do Homem ocidental. E, na verdade, o que é a dita culpabilização judaico-cristã se comparada com as conceções cármicas do budismo, que explica o sofrimento dos viventes pela má vida que eles teriam levado em reencarnações passadas?

Mas o que me interessava, realmente, era fomentar uma reflexão sobre a culpa e a punição, de que os sistemas educativos estão eivados, os sistemas e os processos avaliativos (de alunos, de professores), enquanto sua expressão mais evidente. Expressão do julgamento que estamos constantemente a fazer (dos outros, não de nós...) e que acaba, sempre, por nos ilibar de qualquer responsabilidade. A culpa, a verdadeira, é sempre dos outros. Nós somos as vítimas; 'eles', os nossos algozes. E o nosso desejo (o profundo, o que não confessamos nem a nós próprios) é passarmos de vítimas a... algozes!

Este foi, pois, o ponto de partida para a desmontagem da violência psicológica que existe nos nossos atos, mesmo nos mais habituais e, portanto, os mais 'inofensivos'... Os atos de que nós, os trabalhadores da Educação, somos feitos e pelos quais vamos 'fazendo' os outros...

Albano EstrelaProfessor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
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