A PALAVRA A...

O coração não se reforma

Os primeiros anos da reforma tinham decorrido na mansidão das coisas óbvias. Uma viagem no verão com a mulher. O jantar do domingo com as filhas, os genros, os netos; o Natal passado em casa de uma das filhas, o ano novo na de outra. E um certo prazer nas conversas de café, com colegas também na reformação ou em vias de nela entrarem.
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Os primeiros anos da reforma tinham decorrido na mansidão das coisas óbvias. Uma viagem no verão com a mulher. O jantar do domingo com as filhas, os genros, os netos; o Natal passado em casa de uma das filhas, o ano novo na de outra. E um certo prazer nas conversas de café, com colegas também na reformação ou em vias de nela entrarem. E a leitura dos jornais - portugueses durante a semana; El País, Le Monde Hebdomadaire, ao fim de semana. Da televisão, apenas os noticiários; aos domingos, o canal de História. E umas sonolências mornas após as refeições. Enfim, um quase nada de vida, que ele saboreava com comedimento.

A mulher, também na reforma da escola, incitava-o: 'Se desses umas explicações, mantinhas-te mais ativo. Assim, não sei, vais acabar por ficar neura...' Ele não estava propriamente em desacordo: 'Qualquer dia, passas-me um ou dois alunos, para eu experimentar.' Mas esse dia não chegava: 'Que queres, ando com uma preguiça dos diabos. Devo estar a precisar de descanso...' Ela encolhia os ombros: 'Como queiras, tu é que sabes, mas não sei como aguentas tanta pasmaceira, há mais de dois anos...'

E surgiu o dia em que tudo mudou: num corredor que dava acesso à zona dos cafés do centro comercial onde ele passava as tardes, ouviu-se um chorar, em aflição. Era uma menina de quatro, cinco anos, a quem uma senhora de meia-idade tentava agarrar a mão. A menina negava-se a ser por ela conduzida e caminhava ao seu lado, sempre a chorar. Tinha as faces vermelhas - do choro? Então, a dama estacou: segurou a menina pelo ombro e, com a mão livre, deu-lhe uma tremenda bofetada: 'Dá-me a mão, já te disse! Tens de me obedecer, senão, vais ver!' - gritava em descontrolo. E, em maior descontrolação ainda, berrou: 'Tenho que te vergar, nem que te desfaça essa cara!' O choro da criança era sofrimento, raiva, mas continuava a não dar a mão, caminhando ao lado da dama (avó?), lavada em lágrimas - ofendida, sofrida, mas sempre de cabeça erguida.

Ele levantou-se, num impulso, sem saber o que fazer, mas com uma revolta em que estava contida toda a raiva, que guardava dentro de si desde os tempos de menino em desobediência à prepotência do seu pai. Começou a segui-las, mas elas entraram na casa de banho. Para a megera bater mais à vontade na menina? Do lado de fora dos lavabos nada se ouvia e, quando se preparava para bater à porta, entrou uma senhora. Foi com as pernas a tremer que voltou à grande sala, onde se fumava, conversava, bebia café - e se esvaziavam copos de água, a empurrarem comprimidos de todas as cores.

Nada disse aos companheiros de mesa, porque nada tinha para lhes dizer. Ouviu-os sem entender bem o que estavam a dizer e foi mais cedo para casa, a pé, a lavar a raiva com o ar fresco da tarde. Quando apanhou a mulher a jeito, contou-lhe a cena do centro comercial, mas não a sentiu sintonizada com a sua emoção. Por isso, foi-se calando, a remoer sentimentos, a tentar compreender a razão de tanta perturbação.

Só à noite é que a mulher se apercebeu do que, na verdade, lhe estava a acontecer e quis acalmá-lo: 'Há crianças terríveis. Mesmo a nossa Helena em pequena, lembras-te? Quantas vezes a tivemos de castigar (...). Vai mas é descansar, amanhã já te passou...' Mas não passou. Agravou-se, com o sonho da Helena a ser castigada.

E a ansiedade foi-se mantendo nos dias seguintes. O lado errado de mil e uma coisas que fizera na vida - com as filhas, com os alunos - enchia-o de culpa e remorso. A mulher continuava atenta: 'Andas tão inquieto... é melhor ires ao médico, a ver se ele te dá um ansiolítico...' Mas ele sabia que não era na química que estava a salvação. Era, sim, no projeto que começava a elaborar. O projeto que daria sentido ao resto da sua vida - e que lhe permitiria recuperar o que, até aí, fora fragmentário, desconexo - e doloroso. Não seriam os reformados os únicos que poderiam transformar o mundo? Havia legiões e legiões deles, em todos os países, a maioria a viver em egoísmos que lhes envenenavam corpo e alma. A envenenarem-se a si próprios, porque não tinham um ideal que os fizesse viver de outro modo. Se lhes fosse dada uma oportunidade, eles poderiam ser os arautos de um mundo diferente. A sua disponibilidade, a sua experiência, o seu distanciamento do desejo que engravida a emoção, não constituiriam a melhor garantia para a sua mobilização, como obreiros de um mundo novo? Um admirável mundo novo, em que a compreensão, o amor pelos outros seriam os sentimentos que guiariam os homens.

Não, não era uma religião, nem um partido político ou uma simples intervenção cívica que ele preconizava - era uma mudança de atitude, uma mudança radical de atitude face aos mais novos - e, através deles, a possibilidade de intervir na educação dos pais, dos avós, da sociedade em geral. Disparates de velho, sem nada para fazer e, muito menos, para pensar? Talvez, mas... porque não tentar? E como começar? Talvez por uma escola... Um escola de reformados, uma escola de avós? E porque não?

A mulher achou graça à ideia: 'Começa, depois logo se verá. Se isso te faz feliz... Temos cá em casa espaço de sobra para a tua escolinha. Os quartos das filhas estão praticamente vazios, elas têm levado tudo para as suas casas...'

A partir daí, a sua vida ganhou um sentido diferente: escreveu uma primeira versão dos 'estatutos' da escola; elaborou uma lista dos 'dez mandamentos', o decálogo do 'seu movimento'; começou a divulgar as suas ideias entre amigos e conhecidos. Às vezes, com a adesão das esposas, sempre um passo à frente dos seus cônjuges.

Ao fim de sete, oito meses, a 'sua obra' ia seguindo o seu curso, com altos e baixos, com entusiasmos de muitos e reticências de alguns. Mas ele não se poupava a esforços, nem abrandava as atividades conducentes ao fim a que se havia proposto. As incompreensões, as dificuldades várias, não lhe ocasionavam desânimo, pelo contrário, funcionavam com estímulos para prosseguimento. Tem a certeza de que o que diz, o que escreve, o que faz, irá contagiar os indecisos, dar ânimo aos timoratos, enfim, abrir-lhe as portas que dão acesso ao êxito. A mulher, confidente e conselheira, recomenda-lhe moderação nas ações - não para lhe esmorecer os ânimos, mas para lhe moderar a freima: 'Está bem, andas entusiasmado, isso é bom. Já não te podia ver a bocejar pelos cantos... Mas, vê lá, não exageres, lembra-te da tua idade.' Ele lembrava-se, mas isso não era óbice: 'Agora, que ando a tomar os comprimidos para a tensão, sinto-me ótimo. Os tempos são outros, já não se morre de ataque de coração, como o meu pai. O futuro é dos homens e das mulheres da terceira idade, ou seja, dos reformados. Sabes quantos reformados há na Europa? E só estou a falar da União Europeia...' Quis dizer o número exato, mas não se recordava: 'Milhões, minha filha, milhões. Dentro de alguns anos seremos a maioria populacional, em muitos países. Não queremos tomar o poder, não é esse o nosso objetivo, mas queremos deixar alguns valores, uma sociedade mais justa, menos violenta. Nós somos a vanguarda de um mundo melhor!' Nesses momentos, a mulher sorria: 'Mundo novo?' Ele, imbuído dos seus ardores messiânicos, insistia: 'Sim, não duvides! Para isso, basta criar uma rede de escolas. Escolas de amor, 'escolas do coração.' É assim que se constroem os mundos novos. Não foi assim que os muçulmanos redescobriram a sua fé, os seus valores e refizeram o seu modo de vida? Sim, foi através das escolas corânicas. Se, agora, estão a ser mal orientadas, isso é outra coisa. Nós, com as 'escolas do coração', vamos fazer mais e melhor...'

Isto tudo, me contava a esposa, quando a fui visitar, a fim de lhe apresentar condolências pela morte do marido, amigo meu de longa data - mais precisamente desde os bancos da universidade. Morto de ataque cardíaco, quando se preparava para abrir a primeira 'escola do coração', nos quartos de trás da sua casa.
Albano EstrelaProfessor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
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