A PALAVRA A...

Investigação Pedagógica

'A sabedoria popular costuma dizer que 'de médico e de pedagogo todos temos um pouco', no entendimento de que, em relação às respetivas temáticas, todos somos capazes (ou pensamos ser capazes...) de exprimir uma qualquer opinião ou adotar uma qualquer prática.'
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Trata-se, evidentemente, de uma afirmação com base empírica, reconhecidamente verdadeira, como o dia a dia cada um de nós imediatamente comprova.

No entanto, há que ter em atenção que tanto a Medicina como a Pedagogia, mantendo embora essa ligação estreita ao conhecimento popular, evoluíram espantosamente no plano científico, ainda que se reconheça que esse progresso é mais evidente, mais consolidado, mais diversificado e mais suportado tecnicamente no que respeita à Medicina.

Mas também no que concerne à Pedagogia se têm feito grandes progressos no domínio da construção científica, a partir dos trabalhos de investigadores que, ao longo das sucessivas gerações tudo foram fazendo para lhe retirar a base empírica que, durante muito tempo, dominou o universo dos seus conhecimentos.

E é interessante notar que, no domínio da investigação pedagógica se foram consolidando e aperfeiçoando aspetos metodológicos específicos que, não se afastando embora da lógica de outras ciências sociais, lhe foram dando a condição de autonomia científica que é própria de qualquer ciência que se vai construindo.

É sabido que existem diferentes formas para se chegar ao conhecimento da realidade objetiva, no domínio das ciências sociais e humanas. Uma primeira abordagem será a análise da prática do que o homem realiza nos diferentes campos; uma segunda, será proceder à recolha do que existe publicado sobre as temáticas em causa, confirmando os conhecimentos adquiridos e, também, as interrogações existentes; uma terceira, indagando diretamente o que pensam e realizam os especialistas da matéria, em termos de aferir as referências dominantes do seu pensamento e da sua ação.

Estas - e porventura outras - são formas práticas e diretas de conhecer a realidade e, nessa medida, potencialmente geradoras de inquietação em quem queira ir mais além.

É que, com base no conhecimento adquirido, surgem novos problemas sem resposta científica adquirida, suscitando o desejo de a procurar.

A passagem desse desejo à prática é o inicio do trabalho de investigação, traduzido na procura da essência dos fenómenos a estudar, a partir do registo das suas regularidades, dos seus nexos internos e das suas relações.

Mas para que a investigação pedagógica se constitua em instrumento científico suscetível de enriquecer a teoria e aperfeiçoar as práticas adotadas, ele terá de revelar uma dimensão científica conveniente, cumprindo as exigências decorrentes dessa condição.

Em concreto, pode dizer-se que os trabalhos de investigação pedagógica devem, antes de mais, contar com uma fundamentação metodológica muito sólida, recolhida nos caminhos já adquiridos das ciências sociais e humanas; depois, apresentar um grande rigor científico na sua conceção, programação e execução; finalmente, assumir elevada clareza na interpretação dos dados obtidos.

Só assim, independentemente do carácter de novidade que os resultados apresentem ou não, é que se pode dizer que a investigação pedagógica está contribuindo para o desenvolvimento da ciência.

No domínio da Pedagogia, tem de haver um cuidado extremo na destrinça entre pensamento cientificamente construído e pensamento opinativo que, a despeito da sua base de apreciação empírica, não tem a validade daquele.

Aliás, é nesta destrinça que acabamos sempre por relativizar a ideia original de que 'de pedagogo todos temos um pouco', pois que pode bem suceder a nossa pedagogia se afaste, mais ou menos, dos caminhos que a ciência aconselha.

Com muita frequência, concluiremos que a investigação pedagógica confirma o nosso pensamento original; mas, uma vez ou outra, é bem certo que ela nos dirá que estamos bem distantes daquilo que um pensamento cientificamente construído pode acolher.

Albano EstrelaProfessor catedrático jubilado da Universidade de Lisboa (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação), nasceu no Porto em 1933. Autor de variadíssimos trabalhos na área das Ciências da Educação, tem-se dedicado, nos últimos anos, à literatura de ficção, nomeadamente ao conto e à crónica ("O Mapa dos Sabores", "Crónicas de Um Portuense Arrependido", "As Memórias que Salazar Não Escreveu", "E Se o Mal Existisse Mesmo?", entre outros).
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