A PALAVRA A...

Há mais (saberes para a) vida, para além da Matemática

Será muita da Matemática que os alunos têm que aprender mais importante para a vida que o Inglês? Ou saber nadar? Ou saber comer corretamente?
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Segundo os dados do Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, do Ministério da Educação, constatou-se que no exame do 9.º ano de 2007, só 27,2% dos alunos tiveram nota positiva, ou seja, 72,8% dos alunos que se submeteram a exame reprovaram. Este ano letivo, a percentagem de alunos que tiraram nota positiva subiu para os 55,2%.

Esta melhoria dos resultados no exame de Matemática do 9.º ano de 2008 (e não só) escandalizou alguns membros (mais mediáticos) da Sociedade Portuguesa de Matemática. Encontraram nos resultados dos exames os dados empíricos para suportar a tese, previamente anunciada, que os exames deste ano foram os mais fáceis de sempre. A única explicação dada por estes iluminados e superinteligentes (não pertencessem à rara variedade da espécie humana que são os matemáticos) para a melhoria das notas foi o "ridiculamente fácil" exame com que o ME presenteou os alunos (mesmo assim reprovaram cerca de 50% dos estudantes. Que dirão quando as taxas de reprovação descerem para níveis aceitáveis, como os 5%?).

Com base neste pressuposto, acusaram o Governo de promover o facilitismo, de dar um péssimo sinal aos estudantes e aos professores, de que não valia a pena estudar, pois toda a gente passava. Não consideraram sequer, como fatores explicativos deste pequeno sucesso, causas obviamente multifatoriais: 1) o esforço feito pelos alunos para se prepararem para o exame; 2) as provas intercalares elaboradas pelo Ministério da Educação (ME), para os alunos treinarem; 3) o banco com mais de mil questões sobre os tópicos de exame, disponibilizado pelo ME; 4) o tempo que muitas escolas passaram a dedicar à Matemática. (Muita da carga horária de disciplinas como Estudo Acompanhado, Área de Projeto e Formação Cívica foi atribuída à disciplina "rainha"); 5) o empenhamento dos pais (alguns literalmente) para pagar explicações. Estes fatores não são sequer referidos por estes "génios". Os alunos continuam a ser "os burros" de sempre, os professores uns incompetentes, o Ministério um bando de facilitistas, e estes resultados só se explicam porque os exames foram os mais fáceis de sempre. As suas declarações são um atentado à dignidade dos alunos, dos pais, dos professores e do júri nacional de exames.

Na minha opinião, os resultados nos exames melhoraram pelo facto de a prova ser mais adequada (não é o mesmo que simples) e devido às variáveis que citei. Aliás, o adjetivo pouco técnico com que designaram esta prova revela o nível de competência destes senhores, em matéria de avaliação. Aos leigos desculpa-se que designem um exame de fácil ou difícil. Os especialistas devem ter uma linguagem mais técnica. Devem pronunciar-se sobre a qualidade do instrumento de avaliação em termos dos seus atributos, por exemplo, se tem validade de conteúdo (ou seja, se avalia o que se pretende avaliar e com rigor) e se é fiável, ou seja, se aplicado por qualquer pessoa ao mesmo indivíduo daria o mesmo resultado. Como podem pronunciar-se sobre a validade de um exame pessoas que assumem publicamente que nem os programas do Básico e do Secundário conhecem?

Como explicar este alarido em volta do exame da Matemática e as insinuações de facilitismo? (Num contexto em que, em muitos exames, as coisas se mantiveram ou até se agravaram?) O que pretendem estes senhores com este discurso? Transformar a Matemática no saber de todos os saberes? Na matéria mais importante dos curricula dos ensinos Básico, Secundário e Superior? Numa disciplina a que só as elites terão acesso? Numa barreira intransponível para a maioria dos alunos? E com que finalidade farão isto? Na minha opinião, os seus intentos são meramente corporativos. Se a sociedade se convencer que nenhum aluno do Básico sobreviverá se não souber resolver equações do segundo grau, ou que ninguém será feliz se não souber o que são números irracionais, então todos os recursos humanos e materiais serão dedicados a esta disciplina. Haverá mais lugares e horas para distribuir pelos professores de Matemática, e mais dinheiro para dar aos explicadores. Mas será que a Matemática que se ensina é mais adequada para o nível etário e interesse dos alunos? Tenho muitas dúvidas. Em todas as fases da minha vida académica, aprendi mais Matemática do que aquela que necessitei (no presente e no futuro). E a verdade é que o saber ocupa lugar. Se dedicarmos mais tempo a essa disciplina, como poderemos ter tempo para outras, igualmente importantes? Para mim é um crime que se tenham desviado horas da Formação Cívica ou da Área de Projeto para a Matemática. As recomendações do Grupo de Trabalho para a Educação Sexual, liderado pelo Professor Daniel Sampaio, são bem claras: devem ser aproveitadas para a educação para a saúde dos alunos.

Causas do insucesso na disciplina de Matemática
Dariam um contributo à sociedade se refletissem sobre as verdadeiras causas do insucesso a esta disciplina (e às outras). O desastre na disciplina de Matemática nada tem a ver com qualquer défice de inteligência ou inaptidão genética dos alunos portugueses para esta disciplina. Está relacionado fundamentalmente com: a desadequação dos programas ao nível etário dos alunos; com a quantidade e com a qualidade do que é ensinado; com o tipo de provas de avaliação e exames que são feitos, e com o facto de os alunos terem mais 14 disciplinas para dedicar-se. Esse insucesso seria bem visível na Educação Física, se mandássemos as crianças saltar fasquias preparadas para adultos. Deve ser ensinado, em cada fase da vida das pessoas, o que é essencial. No Ensino Básico não precisamos de Matemática para matemáticos, nem de Física para físicos nucleares. Precisamos de Matemática e Física, para a vida quotidiana, e no Ensino Secundário de bases para a prossecução de estudos. O insucesso escolar a Matemática que se verifica em Portugal, em qualquer país normal, daria origem a uma verdadeira revolução. Não compreendo esta esquizofrenia com a Matemática. Não quero com isto dizer que as noções básicas de Matemática não sejam indispensáveis. Simplesmente o que se faz no Ensino Básico é atafulhar os alunos com uma enorme dose desta disciplina, que só serve para os afastar cada vez mais dela e não aprenderem o essencial para a vida.

Sugestões para atenuar o problema do insucesso na Matemática
A Matemática é inegavelmente importante em todas as fases da vida de um estudante. Mas será que toda a Matemática que se ensina nos vários ciclos de ensino é útil? Será muita da Matemática que os alunos têm que aprender mais importante para a vida que o Inglês? Ou saber nadar? Ou saber comer corretamente? Há mais saberes para além da Matemática. Proponho por isso que se ensine menos Matemática (redução do programa) e uma Matemática aplicada, que os alunos entendam (em cada ciclo de estudos) e utilizem na resolução dos seus problemas. Continuem a ensinar esta Matemática a todos meninos da Cova da Moura (e aos alunos de outros "buracos" em que muitos vivem, infelizmente) e eles jamais sairão do fundo. Talvez seja isso que pretendem. Ter uma elite de privilegiados, criada com a cumplicidade de uma escola, a quem se exige que atenue as desigualdades sociais.
José Precioso
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