APRENDIZ DE UTOPIAS
José Pacheco
“Resistência à mudança”
O Heraclito dizia que é na mudança que as coisas repousam. Porém, em muitas escolas, o conceito de "resistência à mudança" - tão caro às ciências da educação - confunde-se com preguiça e contribui para legitimar a mediocridade.
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De todos os lados me chegam notícias de conflitos, como se as escolas fossem um grande campo de batalha. Recebo mensagens de desânimo, assinadas por desistentes. Porém, outras são de impaciência, assinadas por resilientes. Por exemplo:
Caro José, esta necessidade de libertação está na raiz do empenho que emprego por um ensino e uma educação que não foram as minhas. Mas isto parece um "surf" em mar alto. Começar como começou foi isso, um vogar de crista em crista por ondas que já traziam destino. Sou eu que não tenho grandes expectativas quanto ao envolvimento dos professores e vejo mais o dedo de Deus e uma feliz coincidência de rotas que a séria apropriação da pedagogia... Neste principio de ano letivo, continuo a experimentar o "surf" mas agora, em mar de tubarões com barbatana à tona d'água. E, pela dimensão dos ditos, temo que já nem a prancha se salve.
O agrupamento onde a F. pontificava foi extinto e, agora, vejo-me a braços com um presidente em que não vejo outro empenho que não seja continuar a mandar e um vice-presidente saído de uma sacristia e que diligentemente assegura páginas e páginas de horários e colocações e assim se tornou insubstituível ao primeiro, um tenebroso e vingativo prócere.
Fiquei fora de mim, quando ele, ainda sem me conhecer, quis que eu alinhasse com ele, numa converseta estapafúrdia e infundada, para "queimar a F. e a O., umas "traidoras ao ensino, criaturas que alimentam as vontades dos pais..." Enfim, o que ele queria era guerra ...Queimei ali o empenho do biltre!
"O que ele queria era guerra" - escreveu o meu indignado amigo. E será mesmo guerra? Eu sou amante da paz, mas devo reconhecer que, desde que existe Escola, existe uma desgastante guerra surda entre o velho enquistado e o novo por alguns desejado.
Tentei aquietar o subscritor da carta, mostrando-lhe que, apesar de serem só duas as professoras que querem mudar, elas são a maioria numa escola de cerca de mil professores. A crer em Thoreau, "qualquer homem mais justo que seus semelhantes já constitui uma maioria de um"...
Como em todos os conflitos, há o lado dos bons e há o lado dos maus. É evidente que nós estamos sempre do lado dos bons. Resta saber de que lado estamos...
O conflito entre práticas conservadoras e novas práticas é velho de séculos. Em meados do século XX, um ilustre professor denunciava práticas que considerava nocivas. Insurgia-se contra o comportamento de professores que evitavam os problemas que deveriam abordar, mas cujo tratamento imparcial sabiam que poderia "suscitar desagrado em certos círculos influentes", que mudavam de ideias e convicções consoante julgassem conveniente, que se opunham "à permanência na sua escola, de elementos de incontroversa competência e dedicação, com receio de confrontos, para a tranquilidade do seu ramerrão."
O Heraclito dizia que é na mudança que as coisas repousam. Porém, em muitas escolas, o conceito de "resistência à mudança" - tão caro às ciências da educação - confunde-se com preguiça e contribui para legitimar a mediocridade.
Grassa nessas escolas uma praga de pedagogos de gabinete, que usam o legalismo no lugar da lei e que reinterpretam a lei de modo obtuso, no intuito de que tudo fique igual ao que era antes. E, para que continue a parecer necessário o desempenho do cargo que ocupam, para que pareçam úteis as suas circulares e relatórios, perseguem e caluniam todo e qualquer professor que ouse interpelar o instituído, questionar os burocratas, ou - pior ainda! - manifestar ideias diferentes de quem manda na escola, pondo em causa feudos e mandarinatos.
E ainda haverá quem se espante com o lamentável estado em que o ensino (e o país) se encontra?
Caro José, esta necessidade de libertação está na raiz do empenho que emprego por um ensino e uma educação que não foram as minhas. Mas isto parece um "surf" em mar alto. Começar como começou foi isso, um vogar de crista em crista por ondas que já traziam destino. Sou eu que não tenho grandes expectativas quanto ao envolvimento dos professores e vejo mais o dedo de Deus e uma feliz coincidência de rotas que a séria apropriação da pedagogia... Neste principio de ano letivo, continuo a experimentar o "surf" mas agora, em mar de tubarões com barbatana à tona d'água. E, pela dimensão dos ditos, temo que já nem a prancha se salve.
O agrupamento onde a F. pontificava foi extinto e, agora, vejo-me a braços com um presidente em que não vejo outro empenho que não seja continuar a mandar e um vice-presidente saído de uma sacristia e que diligentemente assegura páginas e páginas de horários e colocações e assim se tornou insubstituível ao primeiro, um tenebroso e vingativo prócere.
Fiquei fora de mim, quando ele, ainda sem me conhecer, quis que eu alinhasse com ele, numa converseta estapafúrdia e infundada, para "queimar a F. e a O., umas "traidoras ao ensino, criaturas que alimentam as vontades dos pais..." Enfim, o que ele queria era guerra ...Queimei ali o empenho do biltre!
"O que ele queria era guerra" - escreveu o meu indignado amigo. E será mesmo guerra? Eu sou amante da paz, mas devo reconhecer que, desde que existe Escola, existe uma desgastante guerra surda entre o velho enquistado e o novo por alguns desejado.
Tentei aquietar o subscritor da carta, mostrando-lhe que, apesar de serem só duas as professoras que querem mudar, elas são a maioria numa escola de cerca de mil professores. A crer em Thoreau, "qualquer homem mais justo que seus semelhantes já constitui uma maioria de um"...
Como em todos os conflitos, há o lado dos bons e há o lado dos maus. É evidente que nós estamos sempre do lado dos bons. Resta saber de que lado estamos...
O conflito entre práticas conservadoras e novas práticas é velho de séculos. Em meados do século XX, um ilustre professor denunciava práticas que considerava nocivas. Insurgia-se contra o comportamento de professores que evitavam os problemas que deveriam abordar, mas cujo tratamento imparcial sabiam que poderia "suscitar desagrado em certos círculos influentes", que mudavam de ideias e convicções consoante julgassem conveniente, que se opunham "à permanência na sua escola, de elementos de incontroversa competência e dedicação, com receio de confrontos, para a tranquilidade do seu ramerrão."
O Heraclito dizia que é na mudança que as coisas repousam. Porém, em muitas escolas, o conceito de "resistência à mudança" - tão caro às ciências da educação - confunde-se com preguiça e contribui para legitimar a mediocridade.
Grassa nessas escolas uma praga de pedagogos de gabinete, que usam o legalismo no lugar da lei e que reinterpretam a lei de modo obtuso, no intuito de que tudo fique igual ao que era antes. E, para que continue a parecer necessário o desempenho do cargo que ocupam, para que pareçam úteis as suas circulares e relatórios, perseguem e caluniam todo e qualquer professor que ouse interpelar o instituído, questionar os burocratas, ou - pior ainda! - manifestar ideias diferentes de quem manda na escola, pondo em causa feudos e mandarinatos.
E ainda haverá quem se espante com o lamentável estado em que o ensino (e o país) se encontra?
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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