APRENDIZ DE UTOPIAS

Otimismo – Dicionário de Valores

Nas escolas reina um otimismo negativo, a crença de que a experiência radica na mera repetição. Quando um professor dito “tradicional” me diz ter vinte ou trinta anos de experiência de sala de aula, eu esclareço que terá apenas um ano de experiência. Porque, em cada um dos restantes dezanove, ou vinte e nove, ele terá repetido aquilo que foi a sua experiência do primeiro ano do exercício da profissão.
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DICIONÁRIO DE VALORES

Se já falámos da esperança, falemos do otimismo. Se este é da natureza do tempo, a primeira é da natureza da eternidade, como diria o amigo Rubem Alves.

A experiência humana é uma aventura vivida na fragilidade, mas o otimismo permite que “em alguma parte da Terra um homem esteja sempre plantando, recriando a vida, recomeçando o mundo”. Foi Cora Coralina quem o disse. E, milénios depois de Confúcio, no ocidente lusitano, Fernando Pessoa diria algo semelhante à epígrafe do oriental mestre, firmando poder construir um castelo com as pedras que lhe barravam o caminho...

Quem ousará questionar um otimismo de poeta? Talvez o Francesco Alberoni, que, no belo livro que escreveu sobre o otimismo, nos alerta: “Muitos acreditam que quando alguém sabe fazer algumas coisas e as repete, ano após ano, alcançará a perfeição. Esta ideia está errada. Quem não aprende, desaprende”.

Certamente, Alberoni não estaria a pensar naquilo que acontece no domínio da educação e, em particular, das escolas, lugares onde reina um otimismo negativo, a crença de que a experiência radica na mera repetição. Quando um professor dito “tradicional” confunde formação experiencial com experiência e me diz ter vinte ou trinta anos de experiência de sala de aula, eu esclareço que terá apenas um ano de experiência. Porque, em cada um dos restantes dezanove, ou vinte e nove, ele terá repetido aquilo que foi a sua experiência do primeiro ano do exercício da profissão.

Se o professor reage com desencanto, eu respondo com otimismo. Fraternamente, acompanho-o, com ele aprendo, para que tenha coragem de ir reaprendendo. Acredito que todos possam enveredar por um “vir a ser” não repetitivo. Continuo otimista, quando acolho depoimentos como este:
— Pensámos em desistir várias vezes e retornar ao caminho antigo. Não existiam modelos. Então, fomos criando estruturas organizacionais que nos permitiram interagir em novas formas com as crianças. Após muito trabalho, muito estudo, chegámos ao fim do ano com muitas conquistas. As crianças demonstravam diferentes aprendizagens e víamos avanços em todas as áreas. As relações afetivas foram ampliadas e um grande sentimento de grupo cresceu entre nós. Os pais mostraram-se satisfeitos com o que viam em seus filhos e apoiaram essa prática, que no início parecia tão ousada e ao final revelava-se tão eficiente. Cresceram as crianças, as professoras, a coordenação, a escola.

Continuemos num registo de otimismo, que é algo que pode ser tomado como característica da personalidade de determinadas pessoas, sempre dependente de um ambiente onde exista uma relação de confiança. Sabemos que escasseia o poder do exemplo, mas o deputado federal proporcionalmente mais bem votado do país fez a sua estreia na Câmara dos Deputados abrindo mão dos salários extras que os parlamentares recebem (décimo quarto e décimo quinto salários), reduzindo a sua verba de gabinete e o número de assessores a que teria direito, tudo com carácter irrevogável. Também reduziu em mais de 80% a cota interna do gabinete de 23 030 reais para apenas 4600 reais. Prescindiu de toda a verba indemnizatória e de toda a cota de passagens aéreas e do auxílio-moradia. Com esta (solitária) atitude, os cofres públicos irão economizar mais de 2,3 milhões de reais, nos quatro anos do seu mandato. O deputado José justificou, deste modo, a sua decisão:
— Um mandato parlamentar pode ser de qualidade custando bem menos para o contribuinte do que custa hoje. Esses gastos excessivos são um desrespeito pelo contribuinte. Estou fazendo a minha parte e honrando o compromisso que assumi com meus eleitores.

Não haverá razões para sermos otimistas?
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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