APRENDIZ DE UTOPIAS

Meio Ambiente - Dicionário de Valores

As crianças têm bons motivos para ficarem dentro de casa: computador, jogos de vídeo, televisão. Gastam, em média, 44 horas por semana a jogar polegares sobre aparelhos eletrónicos. Por seu turno, as escolas levam-nas a explorar o ambiente… em livros didáticos.
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DICIONÁRIO DE VALORES

É provável que um jovem passe cerca de uma década a estudar a necessidade de cuidar dos recursos naturais em manuais didáticos, numa escola que se mantenha à margem de uma possibilidade concreta de intervenção. É provável que uma criança ingresse na primeira série numa escola ao lado de um córrego poluído e saia de lá, ao cabo de alguns anos, com o córrego ainda mais poluído. É bem provável que os seus professores atravessem décadas de aulas sem lançarem um olhar sequer para além dos muros da escola... A Terra está doente porque nós estamos doentes. E doente continuará enquanto a nossa maneira de viver for reproduzida nos valores que muitas escolas insistem em transmitir. A racionalidade que prevalece na maioria das práticas escolares augura tempos ainda mais sombrios e de graves conflitos socioambientais. Poder-se-ia pensar que uma escolarização prolongada propiciaria uma maior consciência ambiental, mas isso raramente acontece, por efeito de uma escola distante da vida real.
Entrei na casa de banho de um aeroporto, lugar de passagem de executivos, pessoas de “formação superior”, supostamente na posse de muitos conteúdos de educação ambiental. A água escorria abundante de uma torneira avariada. Nenhum daqueles executivos se importou com o facto. Na parede, por cima da máquina de onde eram arrancadas resmas de papel, deitado no lixo quase seco, havia um apelo: “Senhores usuários, sejam educados. Duas folhas são suficientes para enxugar as mãos.”

O americano Richard Louv criou um novo conceito: “transtorno da falta de contacto com a natureza”. Verificou a tendência, cada dia mais evidente, de as novas gerações se afastarem do contacto com a natureza, de que resulta um conjunto de problemas comportamentais.

As crianças têm bons motivos para ficarem dentro de casa: computador, jogos de vídeo, televisão. Gastam, em média, 44 horas por semana a jogar polegares sobre aparelhos eletrónicos. Por seu turno, as escolas levam-nas a explorar o ambiente… em livros didáticos.

Urge instituir novas práticas sociais nos lugares onde a educação do caráter acontece. Consciente dessa necessidade, já pensei em fazer um Guia quatro rodas dos bons exemplos educacionais do Brasil, pois conheço muitos. Dele constaria, certamente, uma das cartas que o amigo Walter Steurer escreveu:

— Por muito tempo tratamos a Terra como algo a nosso serviço, que podíamos aproveitar ilimitadamente. Nunca pensamos na Terra como sendo nós também parte dela, de seu complexo sistema de vida. O Projeto Âncora tem intensificado cada vez mais o trabalho de consciência ecológica com as crianças e jovens. Acreditamos que esses meninos e meninas além de estarem abertos, mais que os adultos, às necessidades de mudanças em comportamentos e atitudes, sabemos que são capazes de influenciar suas famílias. Nossos índios detêm a sabedoria capaz de nos salvar com o Planeta, são capazes de viver em liberdade, tirando da Terra somente o necessário, com uma organização social que não conhece a corrupção, onde o enriquecimento não faz parte das aspirações pessoais, onde o bem-estar coletivo está acima de tudo. Em nosso dia a dia, podemos usar a Carta da Terra como nosso código de conduta. Nos alegremos por viver neste momento da história humana, onde nos é dada a possibilidade de mudar o rumo da história e salvarmo-nos da destruição da vida.
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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