A PALAVRA A...

Disciplina: que caminho, que futuro?

Os professores são vítimas de uma formação que passou ao lado das questões disciplinares e foram literalmente despejados para uma realidade que muitos não antecipavam. Muito fazem eles e a escola pública só não implodiu graças à sua resiliência e elevado sentido de responsabilidade. Mas também estes têm de se ajustar a uma juventude que respira tecnologia e que não aceita um papel submisso em sala de aula.
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Após a publicação dos mais recentes dados sobre a indisciplina e a criminalidade escolar – Blogue ComRegras, Programa Escola Segura, Conselho Nacional de Educação, entre outros – estamos perante uma certeza: a indisciplina em Portugal não é apenas uma perceção, é real, é elevada e existem números que a comprovam.
Mais do que procurarmos culpados, ou ignorar a realidade, importa criar um plano a curto/médio prazo que, dia após dia, mês após mês, ano após ano, combata este flagelo.

Quatro áreas que considero essenciais:

Ministério de Educação/órgão de Gestão
A última década inverteu a pirâmide educacional, os professores deixaram de ser figuras do saber e tornaram-se bodes expiatórios para tudo o que de errado se passava na escola. Além de criar condições, a tutela precisa de, pelo menos, não atacar os seus profissionais. É um princípio básico para quem quer ter funcionários motivados e respeitados, interna e externamente.

Urge profissionalizar a abordagem às questões disciplinares, através da criação de um observatório que analise, acompanhe e oriente o trabalho que é realizado pelas escolas, permitindo, simultaneamente, uma elevada autonomia para que ao nível micro se apliquem estratégias preventivas: gestão curricular; gestão da carga letiva; dimensão das turmas; implementação de modelos pedagógicos ajustados às características dos alunos e uma forte simplificação legislativa, nomeadamente através de um estatuto do aluno que salve a escola de um autêntico tribunal dos pequeninos.

Encarregados de educação

É o maior desafio que temos pela frente e de difícil resolução. Os encarregados de educação que precisam de mais apoio e orientação são aqueles que normalmente nunca comparecem e que mais desligados estão do seu papel educativo. O que fazer então? Criar novas raízes, apostando nos mais novos, para que a árvore educativa cresça de forma salutar, introduzindo uma política de proximidade, fortalecendo o papel das associações de pais, associando apoios sociais a desempenho parental. Não concebo que encarregados de educação que não cumpram com as suas obrigações parentais usufruam das nossas obrigações contributivas. Afinal, somos ou não somos uma sociedade?

Professores
Comecemos pela base. Os professores são vítimas de uma formação que passou ao lado das questões disciplinares e foram literalmente despejados para uma realidade que muitos não antecipavam. Muito fazem eles e a escola pública só não implodiu graças à sua resiliência e elevado sentido de responsabilidade. Mas também estes têm de se ajustar a uma juventude que respira tecnologia e que não aceita um papel submisso em sala de aula. Aulas teóricas, meramente expositivas e com uma linguagem muito técnica, não cativam e potenciam condutas mais adequadas a um café do que a uma sala de aula.

Alunos

Por fim os alunos. Também eles têm de desempenhar o seu papel e cumprir com as suas obrigações. Se queremos formar adultos responsáveis e autónomos também temos de lhes fazer sentir que as suas escolhas têm consequências, boas ou más, e, independentemente do seu estatuto social, educação parental e influências sociais, também eles têm de fazer uma escolha, serem os donos do seu futuro e não meras vítimas, vivendo na sombra de uma cultura de desculpabilização.

Os caminhos da disciplina são conhecidos, quer as suas proveniências quer os seus destinos, falta o mais difícil: escolher um rumo, assumi-lo e dar-lhe tempo, pois a viagem será longa e com muitos obstáculos pelo caminho...
Alexandre HenriquesProfessor do 3º ciclo e secundário e Autor do Blogue ComRegras
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