APRENDIZ DE UTOPIAS

Lealdade - Dicionário de Valores

Somos aquilo que somos mais o contágio daquilo que os outros são. Colhi de maravilhosas criaturas extraordinários ensinamentos. Com eles me identifiquei e, antropofagicamente, deles absorvi valores. E se a lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade, aprende-se no quotidiano das escolas, cultivei-a.
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DICIONÁRIO DE VALORES

Somos aquilo que somos mais o contágio daquilo que os outros são. Colhi de maravilhosas criaturas extraordinários ensinamentos. Com eles me identifiquei e, antropofagicamente, deles absorvi valores. E se a lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade, aprende-se no quotidiano das escolas, cultivei-a.
Quando criança, eu inquiria o porquê das coisas e escutava a inevitável resposta: Um dia, hás de perceber por que razão aprendes estas coisas.

Já sexagenário, continuo sem saber quando chegará esse dia. Continuo sem perceber o porquê de muitas coisas com as quais “me prepararam para a vida”. Contudo, sei que o essencial é aprendido com aqueles que partilham o nosso viver.

Somos aquilo que somos mais o contágio daquilo que os outros são. Colhi de maravilhosas criaturas extraordinários ensinamentos. Com eles me identifiquei e, antropofagicamente, deles absorvi valores. E se a lealdade, como qualquer outro valor, com gente leal e no exercício da lealdade, aprende-se no quotidiano das escolas, cultivei-a.

Diz-nos o dicionário que lealdade é qualidade, ação ou procedimento de quem é leal, honesto, fiel a compromissos. Se os jovens estão sempre atentos ao exemplo de vida dos adultos e aos valores que eles traduzem, se, através do exemplo, não formos leais, abriremos espaço para o desenvolvimento de contravalores. Em que vida estamos a educar os nossos jovens? Numa vida feita de lealdade a princípios e a gentes? Que virtudes são ensinadas aos nossos jovens, aprendidas pelos nossos jovens?

Não nascemos reflexivos; aprendemos a refletir. Não nascemos com virtudes; aprendemos virtudes. Em secretas, mas extraordinárias escolas, venho aprendendo a lealdade a ideários. Com outros educadores, busco assumir o princípio básico de Santo Agostinho: quando não se pode fazer tudo o que se deve, deve-se fazer tudo o que se pode, sendo leal a si.

No Brasil, reaprendi a lealdade a novos companheiros de projeto. Na história recente deste país, creio que Nise da Silveira terá sido um dos símbolos maiores da lealdade, de uma lealdade entendida como fidelidade a princípios. Nela, reconheço o seu exemplo e inspiração. A sua figura emerge de um tempo conturbado e no contexto de uma sociedade alienada e alienante, uma civilização desviada para um abismo de si mesma. Nise sofreu a repressão, a discriminação, mas manteve-se leal a si mesma e àqueles que, nos asilos de então, recebiam o seu eletrochoque diário. Quando o médico-chefe lhe ordenou que executasse a eletroconvulsoterapia, Nise recusou-se a apertar o botão do eletrochoque. Com esse ousado gesto, mudou de forma definitiva o tratamento psiquiátrico que se fazia no Brasil e influenciou, em definitivo, a psiquiatria do país. E precipitou a sua prisão (ainda que, como bem disse Clarice Lispector, “prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio”). Assim foi que outro escritor, Graciliano Ramos, companheiro de cárcere de Nise, a ela se referiu: “a sua presença benfazeja afugentava lembranças ruins; pobre moça esquecia os próprios males e ocupava-se dos meus”. Lealdade! Lealdade a princípios, lealdade aos seus “loucos”, enfrentando a loucura de fora de asilo.

Salomão avisou-nos: “o homem instruído que se separa das virtudes é como uma joia preciosa em focinho de porco”. E Séneca disse-nos que “não se deve ensinar para a escola, mas para a vida” (non scholae, sed vitae est docendum). Com toda a ousadia que o meu gesto pressupõe, acrescentaria ao preceito desse contemporâneo de Jesus, o exemplo cristão de não ensinar “para”, mas ensinar “com” – é “na vida” e não “para a vida”. É com os outros (discípulos, adeptos, companheiros…), no hic et nunc da humana existência, que a educação acontece.
José PachecoMestre em Ciências da Educação pela Universidade do Porto, foi professor da Escola da Ponte. Foi também docente na Escola Superior de Educação do IPP e membro do Conselho Nacional de Educação.
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