PSICOLOGIA

Burnout e pessoal docente: que ligação?

O professor tem que desempenhar vários papéis, muitas vezes até contraditórios. Frequentemente tem de ensinar jovens que nada querem aprender e que boicotam os direitos dos colegas que o querem fazer. Exige-se-lhe que seja amigo do aluno e potencie o seu desenvolvimento pessoal, mas no final do ano é-lhe pedido para adotar um papel de avaliador, que muitas vezes é contrário ao anterior.
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Já lá vão muitos anos a trabalhar em contexto escolar e, consequentemente, a contactar diariamente com os problemas de alunos, pais e professores. A imersão neste espaço, com características muito particulares, leva-me a encarar os professores, enquanto profissionais, de uma forma muito diferente da maioria das pessoas, que ainda capta a escola e a profissão docente com os olhos do passado. Na busca de soluções para encontrar a resolução dos problemas dos alunos, os professores vão verbalizando a forma como se sentem no desempenho da sua atividade profissional. Esta partilha leva-me a perceber por dentro - porque a escola é também o meu contexto de trabalho - muito dos fatores de stress de que são alvo e que os torna mais vulneráveis ao esgotamento físico e mental.

O professor tem que desempenhar vários papéis, muitas vezes até contraditórios. Frequentemente tem de ensinar jovens que nada querem aprender e que boicotam os direitos dos colegas que o querem fazer. Exige-se-lhe que seja amigo do aluno e potencie o seu desenvolvimento pessoal, mas no final do ano é-lhe pedido para adotar um papel de avaliador, que muitas vezes é contrário ao anterior. Habitualmente é pedido ao professor que atenda aos seus alunos individualmente; no entanto, a elevada dimensão das turmas e a grande concentração de alunos problemáticos e com dificuldades específicas de aprendizagem torna a missão impossível. Tem que se confrontar diariamente com crianças que vivem em contextos familiares cujos pais apresentam pouco envolvimento no processo educacional e que, por isso, testam as regras até ao limite porque a elas não estão habituados.

A relação com os familiares dos alunos é também frequentemente problemática e fonte de stress, porque alguns pais consideram que a escola e os professores são os únicos responsáveis pela educação dos filhos, havendo muitos que atribuem toda a responsabilidade aos docentes sempre que surge alguma dificuldade ou problema de aprendizagem. Os professores são frequentemente alvo de críticas, sendo muito sublinhados os seus fracassos e raramente reconhecido o seu sucesso. Este pouco reconhecimento gera desânimo e desmotivação e um baixo sentimento de realização profissional. Mas as fontes de stress não terminam aqui. O horário de trabalho com horas marcadas na escola cresceu nos últimos anos. No entanto, tal não correspondeu ao reconhecimento, pela escola, das tarefas que o professor precisa de fazer para garantir as aulas e o trabalho com os alunos, mas a uma sobrecarga com ainda mais tarefas, de natureza predominantemente burocrática. Esta situação tem gerado na classe docente um sentimento de desrespeito, sobretudo porque esse tipo de trabalho é percecionado como desnecessário e implica a diminuição do tempo destinado às atividades de docência propriamente dita, ou a realização destas à custa da vida pessoal e familiar dos docentes, o que provoca neles elevada frustração. Poderia continuar a enumerar outros fatores, mas estes já ajudam a ilustrar o que vai minando a motivação dos professores no desempenho da sua profissão.

Tudo o que foi anteriormente referido faz da profissão docente uma das mais vulneráveis à síndroma de burnout, sendo este um distúrbio psíquico de carácter depressivo, marcado por um estado de esgotamento físico e mental, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional. O estado de exaustão começa com o sentimento de desconforto, que vai progressivamente aumentando, à medida que a vontade de lecionar diminui. Frequentemente, sintomas físicos como dores de cabeça, oscilações de humor, distúrbios do sono, dificuldades de concentração e problemas digestivos aparecem associados à ausência de fatores motivacionais, tais como falta de energia, alegria, interesse, ideias, concentração, entre outros. Face ao exposto, torna-se urgente repensar as políticas educativas, envolvendo mais os professores que estão no terreno nas medidas a adotar. A formação contínua dos docentes é outra área a reconsiderar. Numa profissão tão exigente e reclamando contínua atualização, ela é fundamental para que os professores possam refletir, trocar experiências e adquirirem mais ferramentas para lidar adequadamente com as atividades de ensino, escola e cultura institucional. As mudanças, para que sejam eficazes, não deverão ocorrer apenas na esfera microssocial, mas também numa ampla gama de fatores macro-organizacionais.

A escola perdeu a alma e quem por lá anda sabe bem do que falo: torna-se urgente devolver aos professores o carisma e a emoção, dado que sem eles o seu pleno desempenho está seguramente comprometido.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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