PSICOLOGIA

Luto: como dar apoio?

Luto e agosto não combinam, apesar de as circunstâncias da vida e da morte nem sempre olharem a isso. Confesso que tentei impor a mim mesma outro tema, para um mês que, tradicionalmente, é de férias, calor e alegria.
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“Se uma perda é difícil, imagine-se o que não é perder a família inteira! Entrei em fase de negação. Não queria acreditar, não podia acreditar que fosse verdade. Como é que aquilo tinha acontecido?! A par da negação, sentia uma raiva enorme. Como é que eles se tinham ido todos embora sem mim?”
Maria Costa, 48 anos
Batista, I. (2009). Morrer é só não ser visto. Falar do luto de coração aberto. Grupo Planeta.

Luto e agosto não combinam, apesar de as circunstâncias da vida e da morte nem sempre olharem a isso. Confesso que tentei impor a mim mesma outro tema, para um mês que, tradicionalmente, é de férias, calor e alegria. Num período com estas características, quem quererá ler ou pensar em perda? Certamente ninguém, até porque a morte é hoje em dia um tabu, como disse José Luís Peixoto, no livro anteriormente citado “um tabu maior do que o sexo”. A notícia dos três irmãos portugueses que morreram no dia 1 de agosto, num trágico acidente de viação, quando se deslocavam para Portugal para gozarem as férias em Murça, e a morte da filha de uma amiga, também num acidente de viação, em agosto de 2013, impuseram esta reflexão. Claro que, certamente, o tema não seria tão inquietante e não entraria de forma tão intrusiva e compulsiva nos meus pensamentos, se eu própria não tivesse passado a dolorosa experiência de ter perdido uma filha. Numa entrevista à Revista do Expresso, de 1 de agosto de 2015, David Grossman, um dos maiores escritores israelitas contemporâneos, que perdeu um filho na segunda guerra do Líbano, é descrito como “Um escritor que tenta compreender o mundo através das palavras e superar a raiva e a frustração” (…)“Escrevo para compreender o que me acontece e o que significa ser um ser humano normal numa situação anormal”. A escrita tem também para mim este poder emancipador e ao escrever sobre este assunto procuro de alguma forma livrar-me dele.

Como vão aqueles pais que perderam três filhos recomeçar a viver? Como vai a restante família, nomeadamente avós, viver com tão grande perda? Que sentido para a vida, quando se perde várias pessoas com as quais temos laços afetivos incomensuráveis? São estas algumas das perguntas que me vão atormentando e para as quais não encontro resposta, porque neste âmbito, a descoberta da solução é de índole muito pessoal e depende de uma infinidade de fatores e especificidades que é impossível enumerar. Poderia, eventualmente, perguntar a mim própria: e tu como sobreviveste? O problema é que não chegaria à solução universal, porque cada luto, cada pessoa, cada circunstância é díspar da outra e qualquer resposta seria sempre incompleta e reducionista.

O que se deverá/poderá então fazer para apoiar aqueles que se confrontaram com perdas dolorosas? Estudos realizados por Collin Murray Parkes, uma das mais conceituadas autoridades sobre o tema, apontam várias possibilidades. Numa primeira fase, o apoio da família e dos amigos é absolutamente fundamental. Aceitar a dor do outro de forma incondicional, incentivá-lo a expressar os seus sentimentos, tendo consciência que isso é fundamental no processo de luto, manifestar carinho de diferentes formas, através de uma mensagem, um telefonema, um pequeno gesto, são atitudes que ajudarão quem vive a dor da perda. Quanto maior for a rede de apoio melhor. O sofrimento e os sentimentos típicos do luto são frequentemente paralisantes. Por isso, quem está à volta pode ser uma presença preciosa, se se disponibilizar a tratar dos assuntos práticos que têm de ser resolvidos e que a pessoa em luto não tem disponibilidade emocional para realizar.

As pessoas que passaram por uma perda importante por vezes são as mais bem qualificadas para ajudar outras pessoas que estão a viver o processo de luto. Daí muitas vezes os grupos de interajuda poderem ser fonte de grande apoio. A Nossa Âncora é uma associação destinada a apoiar pais e família mais chegada (irmãos e avós) no processo de luto. Teve como semente a iniciativa do psiquiatra João Sennfelt que convidou Maria Emília Pires, uma mãe que tinha perdido uma filha, a falar com uma outra mãe que, na mesma situação, tentava “todos os dias” o suicídio. Do efeito positivo deste encontro e de muitos que se sucederam surgiu então a associação já referida, cujo site é: www.anossaancora.org.

O apoio médico e psicológico pode também ser necessário, sendo o encaminhamento para psiquiatria especialmente importante, quando é identificado risco de suicídio.

Muito haveria ainda a dizer, mas acho que tenho mesmo que terminar respondendo à pergunta: “O que é que te obrigou concretamente a ir em frente após a morte da tua filha?”.

Uma rede de apoio extraordinária, a escrita e acima de tudo, ter um filho muito pequeno que precisava de uma mãe equilibrada para crescer feliz!
            

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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