PSICOLOGIA

Abuso sexual: marcas que não se apagam!

A minha atividade profissional tem-me obrigado a fazer um exercício pouco agradável relativamente às questões do abuso sexual de crianças, para compreender melhor este grave problema de saúde pública, com elevada incidência e com graves consequências para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da vítima e da sua família. É esse exercício que lhe proponho: implica uma “viagem à infância”.
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Esqueça que é adulto e imagine-se com uma idade compreendida entre os 4 e os 9 anos, período de risco particularmente elevado no que se refere ao abuso sexual. Imagine que alguém que vivia consigo, com o qual tinha laços afetivos fortes e em quem confiava (madrasta, padrasto, tutor, meio-irmão, avós, namorado ou companheiro da mãe, por exemplo), se aproximava de si e, de uma forma subtil, como se de um jogo ou de algo especial e divertido se tratasse, iniciasse uma aproximação física. Numa primeira fase e num contexto mais privado, esse adulto que estava a tentar o contacto físico poderia expor total ou parcialmente o seu corpo e pedir-lhe para fazer o mesmo. Após um primeiro encontro, marcado apenas pela observação mútua do corpo, o perpetrador passaria a masturbar-se e incentiva-o a fazer o mesmo. Progressivamente, o toque passaria a entrar na interação, podendo incidir inicialmente em diversas partes do corpo e acabando por se centrar nas partes eróticas. A atividade poderia então progredir para sexo oral e/ou anal.

Após a iniciação do comportamento sexual, essa pessoa em quem confiava passava a uma tarefa absolutamente primordial: impor-lhe o sigilo. Esta imposição teria duas funções: manter o abuso oculto e permitir a sua repetição continuada. Imagine-se nesta situação, em que continuamente era persuadido ou pressionado a não revelar nada a ninguém, podendo ser mesmo ameaçado se demonstrasse interesse em fazê-lo: “Se contares à mãe, ela ficará muito zangada,”, “Se contares a alguém, eu mato-te.”, “Se revelares o que se passou entre nós, eu mato a tua irmã.” O que pensa que faria na situação descrita? Revelaria o que aquela pessoa, integrada no seu contexto familiar e supostamente de confiança, lhe estava a fazer? Ao realizar este exercício, concluí que eu, enquanto criança, teria muita dificuldade em recorrer a um adulto para expor uma situação como esta. Infelizmente, seria como a maioria das crianças, que guardam segredo e só revelam o abuso muitos anos mais tarde. Porque é que as crianças guardam sigilo? As razões poderão ser variadas: sentimento de lealdade para com o agressor, existência de recompensas, o facto de ter gostado da atividade (sentimento de que é importante para uma pessoa adulta, aumento da autoestima e estímulo sexual agradável) e também as ameaças.

Porquê realizar um exercício como este? Posso garantir a quem está a conseguir ler este artigo e ainda não procurou outro mais agradável que me causou profundo mau estar colocar-me na pele de uma criança abusada, até porque o tenho de fazer na vida real em relação a crianças reais que também foram alvo de abuso. A resposta à questão colocada é simples: porque a maioria dos abusos sexuais a menores ocorre dentro da própria casa e é perpetrada por pessoas próximas, que desempenham o papel de cuidador das vítimas, sendo que o pai biológico e o padrasto aparecem como principais abusadores. Face ao exposto, é indispensável uma permanente atenção relativamente às crianças e às pessoas que delas cuidam; diria mesmo que é importante uma pontinha de desconfiança. Com esta afirmação não pretendo instigar propriamente a desconfiança ao nível das relações; pretendo apenas sensibilizar para uma realidade com grande incidência, que ocorre sobretudo no seio familiar, e para a necessidade de uma atitude de permanente vigilância.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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