PSICOLOGIA

5.º ano: uma transição difícil?

Sem querer generalizar, posso afirmar que, de uma maneira geral, os pais ficam mais ansiosos que os filhos quando se aproxima o momento de transição para o 5.º ano.
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Em maio de 2012, um grupo de pais, cujos filhos iriam iniciar o 5.º ano de escolaridade no Agrupamento de Escolas onde trabalho, solicitou à Direção a realização de uma visita guiada ao espaço escolar. O objetivo deste pedido era, segundo eles, dar a conhecer aos filhos a nova escola e tirar dúvidas sobre questões relacionadas com o seu funcionamento. Os alunos em questão não tinham frequentado o primeiro ciclo neste agrupamento e, por isso, havia um total desconhecimento relativamente ao que os esperava no ano letivo seguinte.

Do contato com estes pais e filhos, dado que os acompanhei neste périplo, ficaram-me duas memórias: à chegada, a ansiedade dos pais e a alegria dos filhos; à saída, a maior tranquilidade dos pais e a manutenção do entusiasmo dos filhos. Sem querer generalizar, posso afirmar que, de uma maneira geral, os pais ficam mais ansiosos que os filhos quando se aproxima o momento de transição para o 5.º ano.

Embora a transição de escolas seja mencionada na literatura como um acontecimento que pode implicar perturbação no funcionamento adaptativo das crianças, dado que implica vários ajustamentos, a análise do gráfico com que iniciei esta reflexão vem colocar em dúvida esta constatação da literatura. Segundo este estudo realizado em Portugal com 591 crianças do 3.º e do 4.º ano de escolaridade, que frequentavam escolas da rede pública e jardins-escolas João de Deus de várias partes do país, pode concluir-se que a mudança para o 5.º ano não interfere no ajustamento emocional das crianças. Os problemas emocionais/ comportamentais relatados por pais e professores parecem até registar uma ligeira diminuição, embora esta não seja estatisticamente significativa.
Este estudo aponta, ainda, para o facto de os acontecimentos indutores de maior stresse escolar na transição se prenderem com o domínio académico. Os alunos que frequentavam o 4.º ano de escolaridade, sobretudo em escolas do ensino público, sofrem um decréscimo em termos do seu desempenho e autoconceito académico quando transitam para o 5.º ano. Estes dados remetem para a importância da supervisão familiar no que se refere à realização das tarefas escolares. Os pais deverão, nesta fase de mudança, apoiar mais os filhos, verificando se estudaram e se realizaram as tarefas propostas pelos professores, conversando sobre a escola e sobre os problemas lá vividos, incentivando e mostrando aos filhos que são capazes, em vez de exigirem resultados elevados que se podem tornar ansiogénicos e contraproducentes para a aprendizagem. À escola cabe o papel de ajudar os pais a desenvolverem competências que lhes permitam apoiar os filhos no processo de aprendizagem e no seu progresso escolar.

Um aspeto muito importante, que não pode deixar de ser mencionado, dado que é fundamental para o bom desempenho académico e funcionamento adaptativo da criança, é o envolvimento parental, sendo a comunicação entre a família e a escola absolutamente fulcral. Relativamente a este ponto, as escolas deverão ter uma atenção especial relativamente às famílias de baixo estatuto socioeconómico, dado que estas, embora se mostrem interessadas em colaborar com a escola, nem sempre têm conhecimentos nem competências para “fazer mais”.

Para terminar, resta acrescentar que a maioria das escolas já promove atividades de integração para alunos que transitam para o 2.º ciclo, nomeadamente visitas à nova escola por parte dos alunos do 4.º ano de escolaridade, organização de ações de sensibilização no início do ano e inclusão nas mesmas turmas de pequenos grupos de alunos que já se conheciam do 1.º ciclo.

Face ao exposto, espero que os pais tenham ficado mais tranquilos, tal como aconteceu com os que participaram na visita atrás mencionada, e que os resultados deste estudo os tenham convencido de que, de uma forma geral, os mais novos se adaptam muito bem à nova etapa que se aproxima!

Bibliografia: “Envolvimento Parental na Escola e Ajustamento Emocional e Académico - um estudo longitudinal com crianças do ensino básico”. Projeto financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Projetos de Pesquisa Educativa no País. ESE João de Deus 2005.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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