PSICOLOGIA

Suicídio tentado e consumado

Não posso silenciar a consciência dizendo que de nada sabia, pois tinham-me chegado noticias de que anteriormente já fizera uma tentativa de pôr fim à vida. Eu soube e nada fiz...
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Entra-me pela janela todas as manhãs enquanto tomo banho. A primavera trouxe cor e luz a todo o espaço exterior e ela sobressai hirta, nua e cinzenta. Um fantasma de braços descobertos e esticados. Ainda lhe nasceram algumas folhas que, repentina e inesperadamente, foram mirrando e perdendo o tom verdinho. Num momento de explosão de cor, afirmou-se como o sinal claro de que a primavera não se impõe uniformemente. Infelizmente, cá dentro esta imagem sem vida não tem uma conotação neutra, não é apenas uma árvore despida num jardim colorido, mas a lembrança de um amigo que, também na primavera, desistiu de viver. Recentemente, em encontros muito breves proporcionados por uma circunstância muito específica, sem grandes explicações, até porque não havia tempo nem contexto para o fazer, também ele associava a primavera à sua vida vazia e verbalizava: “A Primavera da Vida passou.” Eu não soube ler a metáfora, nem compreendi que não se referia à passagem dos anos, mas à desesperança que consistentemente se terá instalando nos seus dias. Era um daqueles amigos que, apesar de há muito estarmos afastados, permanecia num recanto onde a luz poderia livremente entrar e, desta forma, expor apenas memórias felizes e alguns alicerces que apoiaram o desenvolvimento positivo da pessoa que sou.

Não posso silenciar a consciência dizendo que de nada sabia, pois tinham-me chegado noticias de que anteriormente já fizera uma tentativa de pôr fim à vida. Eu soube e nada fiz; eu que, como profissional e sócia da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, deveria ter tido uma atuação diferente, porque sei que as tentativas de suicídio prévias são o mais importante fator preditor de risco e morte por suicídio. O argumento de que 25 anos de distância nos separavam justificou a minha inação. Agora que ouço o eco de uma arma a disparar, não me parece ter tido um raciocínio ajustado, atendendo aos sinais claros e evidentes do seu total desespero.

O triste damasqueiro que este verão não poderá oferecer os seus frutos, porque também ele já não festeja esta primavera, tem simbolizado a presença diária deste elo da minha vida que se perdeu e quase poderia dizer que me obrigou a este grito de alerta.

O aumento das taxas de suicídio no ano passado, o barco agitado, sem sono e sem rumo, em que vivem muitas pessoas devido à pandemia, obrigam os profissionais de saúde e toda a comunidade a terem um olhar mais vigilante e perspicaz. Não deveremos tropeçar no mito de que nada há a fazer para evitar o suicídio. Muitas vezes o suicídio está associado a doença psiquiátrica, por exemplo, à depressão, contribuindo o tratamento da doença para a redução significativa do risco. Incentivar alguém a procurar ajuda médica poderá ser uma estratégia muito eficaz de prevenção.

Alguém que fala em suicidar-se não está só a querer chamar a atenção; está a fazer um pedido desesperado de ajuda, o que é diferente de chamar a atenção, pese embora muitos pensamentos de suicídio sejam mantidos em segredo. Se houver suspeitas de que estes pensamentos existem, há que questionar diretamente a pessoa, pois, desta forma ela terá uma oportunidade de falar sobre eles. Nunca é demais salientar que está mais que provado que perguntar não servirá de gatilho para o aparecimento dessas ideias, podendo, ao invés, ser o ponto de partida para o início de uma caminhada rumo à solução

Por ironia do destino, escrevo e choro estas palavras no dia em que ele faria 65 anos. Anos e anos passaram em que várias vezes pensei nele e no seu aniversário, porque é um dia importante para todos os portugueses: “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. A esta lembrança, nunca se seguiu nenhum telefonema. Hoje lamento, mas, infelizmente, é demasiado tarde!

Mais informações:

Sociedade Portuguesa de Suicidologia - www.spsuicidologia.com/

 

 

 

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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