EDUCAÇÃO

O lado "desconfinado” de uma escola em tempos de confinamento

Trabalhamos numa escola de referência para acolhimento de filhos de trabalhadores de serviços considerados essenciais. A nossa escola recebe crianças de todas as escolas do agrupamento. Temos muitos filhos de enfermeiros, médicos e polícias e alguns filhos de farmacêuticos e de trabalhadores de supermercados. Temos algumas crianças referenciadas pela CPCJ.
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Nota inicial: Conversei recentemente com duas assistentes operacionais (AO) de uma “escola de referência para acolhimento de filhos e outros dependentes de trabalhadores de serviços essenciais” (Artigo 31.º-B, do Decreto n.º 3-C/2021, de 22 de janeiro) sobre o modo como se tem processado, nessa escola, o acolhimento dessas crianças. Os seus testemunhos foram tão ricos e tão sentidos, que lhes pedi para me deixarem dar-lhes voz neste artigo, em que procuro mostrar aspetos do quotidiano da escola nestes tempos tão estranhos e adversos. Obrigada, minhas queridas amigas.

O silêncio pesa. Não se ouve uma campainha a chamar para as aulas. Não se ouvem os risos das crianças, nem as suas corridas, nem a sua vozearia. Não anda ninguém pelos corredores, as salas estão quase vazias, no recreio o espaço está deserto.

Trabalhamos numa escola de referência para acolhimento de filhos de trabalhadores de serviços considerados essenciais. A nossa escola recebe crianças de todas as escolas do agrupamento. Temos muitos filhos de enfermeiros, médicos e polícias e alguns filhos de farmacêuticos e de trabalhadores de supermercados. Temos algumas crianças referenciadas pela CPCJ. Recebemos muitas crianças, a maior parte delas do 1.º ciclo. Por isso, a maioria vem de outras escolas bem mais pequeninas. Chegam aqui e ficam admiradas com o tamanho tão grande desta escola, que, afinal, virá a ser a delas quando chegarem ao 2.º ciclo.

Cada criança fica em sua sala e é acompanhada por uma AO. E cada AO tem só uma criança. Ali ficam as duas o dia inteiro. E algumas crianças ficam muitas horas. A escola passou a estar aberta mais horas do que dantes. Fecha só perto das oito horas da noite. Tudo com muitas regras, tudo com muito cuidado, tudo com muita higiene. Cada AO procura apoiar o mais possível a criança à sua guarda. Conversam muito, a AO ouve, procura dar confiança à criança e está totalmente disponível para ela. Também está disponível para o professor que estiver a dar aulas online do outro lado da câmara: “O Tiago hoje está a distrair-se muito. Por favor, ajude-o a concentrar-se no exercício.”, “Por favor, verifique se a Luísa consegue encontrar bem a página do livro que eu pedi e se segue a explicação da tarefa.”, “Por favor, quando acabar a aula online, verifique se o Tomé faz as tarefas que indiquei.” E há um grupo de professores destacado para apoiar as AO que estão nas salas com as crianças. Esses professores vão circulando pelas salas, verificando se tudo corre bem e ajudando a resolver os problemas que surgem. Os laços entre cada criança e a AO que a acompanha vão-se estreitando cada vez mais. E essa relação de confiança e de afeto ajuda a lidar com esta escola tão diferente daquilo que conhecíamos e daquilo que gostaríamos que uma escola fosse.

Faz-nos falta a escola em que as crianças podiam ser crianças e podiam correr e brincar, falar e conviver, sem medo de ficarem doentes. Não vemos o dia em que a escola se vai povoar novamente de corridas, risos e vozearia nos intervalos e nós nos vamos queixar do barulho e do reboliço. Mas, entretanto, agora de escola aberta apenas para os filhos de trabalhadores essenciais, entregamo-nos ao nosso trabalho de alma e coração, como, de resto, sempre fizemos, sabendo que somos muito importantes para estas crianças e para as suas famílias. E sentindo que as famílias reconhecem a importância e a qualidade do serviço que prestamos. E a prova disso é que, ao longo de todo este confinamento, o número de crianças na nossa escola foi sempre aumentando.


 

Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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