PSICOLOGIA

Psicólogos bombeiros

Quantos bombeiros exercem em Portugal? Segundo dados do relatório do Observatório Técnico Independente, nomeado pela Assembleia da República em novembro de 2019, existiriam em Portugal, há um ano e tal, cerca de 29883 bombeiros (dos quais 27529 são voluntários). Pelas minhas contas, este número é bem superior. Aos bombeiros profissionais e voluntários, juntam-se muitos outros “bombeiros” forçados. Sou acusada, sobretudo em casa, de pedir demasiados exemplos. Mas neste âmbito, como em muitos outros, ilustrar ajuda a clarificar ideias.
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Recentemente, numa sessão de trabalho com uma turma do 9º ano, no âmbito do processo de Orientação de Carreira, em que se explorava o mundo das profissões afirmei que fui bombeira durante cerca de 20 anos. O brilho que instantaneamente se acendeu no olhar da minha pequena plateia e o “Foi???!!!!” que prontamente suou deixaram-me de imediato com a certeza de que, à elevada expetativa que criei se seguiria rapidamente um momento de desilusão. Naquele compasso de espera entre a minha afirmação e a explicação, talvez alguns antecipassem mentalmente relatos arrebatadores de difíceis combates a incêndios, de salvamentos incríveis em contextos adversos; quem sabe até do arrombamento de uma porta na sequência do esquecimento de uma chave ou do salvamento de um gato, preso no cimo de uma árvore. Eu própria me imaginei numa fração de segundo, junto às Torres Gémeas desmoronadas, cheia de pó e cal. Saltar do que as palavras parecem querer dizer, para a realidade conduziu a um ligeiro desvanecimento do interesse, mas permitiu ilustrar os constrangimentos com que os profissionais muitas vezes se deparam no exercício profissional. Dar resposta a um universo de mais de dois mil alunos, não é missão de psicólogo, talvez nem sequer seja missão de bombeiro, pois também eles têm no seu universo de funções, atividades de âmbito preventivo que supostamente devem desempenhar. Ao fim de 25 anos de carreira recuso-me a afirmar que exerço funções de psicóloga há estes anos todos, pois, o rácio de alunos a acompanhar em determinados períodos foram de tal modo elevados, que apenas me posso dedicar a apagar incêndios, a socorrer emergências, a dar respostas pontuais, sem esperança de poder dar o necessário apoio para provocar mudança. Quando o bombeiro resgata uma pessoa numa situação de perigo, apaga um incêndio, salva um animal em perigo termina a sua missão. Para o psicólogo, que se confronta diariamente com a saúde mental em risco iminente, o primeiro contato é apenas o início de um logo percurso.

Porquê pensar nesta questão agora? A pandemia está a deixar marcas profundamente negativas e quanto a este facto já não há quem o possa negar e como todos sabemos a procissão ainda vai no adro. A elevada mortalidade, a crise social e económica, o luto que não se fez, o familiar que não se acompanhou nos momentos finais, a angustia de ser a próxima vítima, a imprevisibilidade potenciadora de elevada ansiedade exigem que o sistema tenha profissionais em número suficiente que lhes permita o exercício real das suas funções. O psicólogo bombeiro não é eficiente e compromete irremediavelmente a possibilidade de mudanças eficazes e duradouras na vida dos que delas precisam. Acredito que o país precisa de mais bombeiros (têm aqui uma admiradora incondicional!), de mais psicólogos e pode dispensar psicólogos bombeiros, em prol do bem-estar deles próprios e dos outros! Se por qualquer percalço da vida, me for novamente destinada a condição de psicóloga bombeira eu própria me mudarei para o quartel mais próximo, rejeitando definitivamente esta duplicidade de funções, que para além de tudo resto, só descredibiliza a minha profissão!

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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