PSICOLOGIA

O poder das redes sociais

Está ligado a alguma rede social? Considera esta ligação inofensiva para si e para a humanidade? Como podem as empresas da internet ser as mais ricas da história da humanidade quando o produto até parece ser bastante acessível? Como podem, através das redes sociais, ser difundidas notícias falsas com poder para mudar resultados eleitorais? Todos sabemos de líderes políticos eleitos com a influência destas notícias e as consequências nefastas daí decorrentes.
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Antes de passar à leitura da informação que se segue, seria interessante que tentasse responder às questões anteriormente colocadas.

Se considera que o Facebook e outras redes sociais foram concebidos sobretudo para lhe permitir manter o contacto com os seus amigos e para lhe dar a conhecer o que eles andam a fazer e que o Google é apenas um motor de busca, então posso desde já dizer-lhe que está equivocado. A indústria das tecnologias é demasiado rentável para nos convencer de que a sua intenção é promover a nossa felicidade, pedindo uma retribuição reduzida. Na verdade, a moeda de troca é bastante elevada, porque tudo o que fazemos e o tempo que gastamos on line é monitorizado, acompanhado e medido, com o objetivo de prever o nosso comportamento. Mas afinal para que interessa o que cada um de nós, enquanto seres individuais, vê e o tempo que passa a ver? O que aparentemente até parece pouco útil é de facto de uma importância extraordinária. A recolha destes dados permite prever cada vez melhor o que fazemos e quem somos e, consequentemente, é um instrumento para manipular e mudar os nossos comportamentos, pensamentos e, na essência, a nossa própria maneira de ser, sem que nos apercebamos. Enquanto vamos confraternizando on line e aumentando os nossos amigos virtuais, há publicidade a circular e a nossa atenção é vendida aos anunciantes, sem que disso tenhamos plena consciência. Somos manipulados e quanto mais anúncios vemos mais dinheiro entra no bolso de alguém. Somos mais lucrativos se passarmos o tempo a olhar para um ecrã e para anúncios do que se gastarmos o nosso tempo a viver a vida longe deles. A manipulação leva-nos novamente às notícias falsas. Estas efetivamente têm muito poder porque a tal informação que é registada permite identificar claramente quem são as pessoas potencialmente influenciáveis por elas e é preferencialmente junto desse grupo de pessoas que essas notícias chegam sendo assumidas como verdadeiras e influenciando as suas decisões.

A forma como foram concebidas as redes sociais é realmente de grande astúcia dado que, ao otimizar a ligação entre as pessoas, vai afetar diretamente a libertação de dopamina na via da recompensa, o que potencializa o surgimento do vício. A nova geração está, na verdade, a ser treinada e condicionada para, em situações de solidão, desconforto, ansiedade e medo, procurar o conforto através da via digital, não dispondo de formas alternativas para lidar com sentimentos negativos.

Não estará a exagerar quem considera a tecnologia uma ameaça existencial? O que temos vindo a constatar é que a tecnologia traz à superfície o pior da sociedade. Se a tecnologia cria indignação, falta de confiança, solidão, alienação, mais polarização, mais populismo, mais pirataria eleitoral, mais caos em massa, mais incapacidade de nos concentramos nos problemas, não estaremos perante uma ameaça real?

Jaron Lanier, cientista da computação e “Founding Father of Virtual Reality” refere mesmo que, se esta ligação às redes sociais se prolongar por mais 20 anos, provavelmente destruiremos a nossa civilização devido à ignorância, à incapacidade de enfrentar o desafio das alterações climáticas e à degradação das democracias a nível mundial. Estas cairão numa espécie de disfunção autocrática bizarra e, provavelmente, instalar-se-á a ruina da economia global.

Face ao exposto é urgente reformular as redes sociais e as regras que as regem para que não destruam o mundo. Parece-lhe exagerada esta conclusão? Não o consegui convencer? Então veja o documentário na Netflix: “The social dilema”, em que os principais testemunhos são de profissionais com cargos de elevada responsabilidade nas próprias redes sociais. A não perder!
 

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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