EDUCAÇÃO

A escola ainda em tempos COVID

A escola, os professores e a interação face a face dentro da sala de aula são insubstituíveis e, por isso, todos desejamos o regresso duradouro ao ensino presencial, com medidas que acautelem a segurança de alunos, professores e assistentes operacionais.
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O novo ano letivo começou marcado por muitos receios e dúvidas. Muitos esforços se conjugam para colmatar problemas estruturais das escolas que dificultam a indispensável garantia de medidas de segurança eficazes no combate ao novo corona vírus: escolas sobrelotadas; salas de aula de difícil arejamento; turmas grandes, muitas vezes em salas demasiado pequenas; corpo docente envelhecido, com elevado número de professores pertencentes a grupos de risco; número insuficiente de assistentes operacionais. Certa, certa, é a vontade comum a toda a comunidade educativa de garantir as melhores condições possíveis para o funcionamento do ano escolar, não obstante tão adversa conjuntura.

No ano letivo transato, o fecho das escolas foi uma das medidas inegáveis na luta contra a pandemia, que apanhou de surpresa toda a sociedade. Sem qualquer preparação prévia, os professores reinventaram-se para conseguirem acompanhar os seus alunos. Com mais ou menos sucesso, a escola entrou pela porta adentro nos lares de todo o país. Em alguns, havia computadores a facilitar essa entrada; noutros havia só um telemóvel; noutros, nem isso. Em muitos lares pais e filhos estavam, assim, em teletrabalho, às vezes em torno da mesma mesa. Noutros, enquanto os filhos “frequentavam” a escola à distância, os pais viam-se a braços com corte ou desaparecimento total de rendimentos.

Muitos pais começaram por se sentir culpabilizados por se verem a braços com a tarefa de garantir a escola em casa, não se sentindo capazes de o fazer. Assim aconteceu com Ana, mãe de Tiago, um menino do 5º ano, que o confessou por e-mail à professora de Inglês:Peço desculpa por o Tiago não ter mandado os TPC. Insisti para ele os fazer, ralhei-lhe, até perdi a paciência e discutimos. Mas ele disse que não os sabia fazer e eu não sei Inglês paro o ensinar. E agora? Ele vai ter falta? Desculpe-me por não ser capaz de ajudar o meu filho.

Teresa, a professora de Inglês, respondeu-lhe desdramatizando e clarificando o que esperava dos pais:
Não tem nada de que pedir desculpa. E também não tem obrigação de ensinar Inglês ao seu filho. Para isso estou cá eu. À 2ª feira os alunos mandam-me os TPC feitos para eu corrigir. Se não conseguirem fazer, dizem as dúvidas que tiveram para eu explicar melhor.Os trabalhos de Inglês destinam-se a ajudar os alunos a não esquecerem o que aprenderam.Não podem contribuir para complicar a vida já difícil das famílias nem para discussões familiares. Se o Tiago recusar fazer os TPC, a Dª Ana informa-me disso e não se zanga mais. 

O episódio seguinte desta história foi feliz, como se vê na mensagem de Ana para a professora:
Muito obrigada pela sua mensagem. Tranquilizou-me muito e fez o Tiago pensar. Mostrei-lha e ele fartou-se de chorar. Disse que a culpa era dele e não minha. Ele ficou mesmo diferente e até já acabou por fazer o TPC desta semana sem eu ter de o obrigar.

O percurso do Tiago durante o resto do ano letivo não foi linear nem isento de dificuldades para ele, para a sua mãe e para os professores. Contudo, a interação foi positiva e a entreajuda, eficaz. À semelhança desta história, houve, por todo o país, uma entrega da maioria dos docentes a novos modos de trabalhar, impensáveis poucos meses antes. Quantos professores não se tornaram até confidentes de pais e mães a braços com severas dificuldades (perda de emprego, doença, habitações com condições deficientes, relações familiares tensas agravadas pelo confinamento)!

Infelizmente, nem todas as histórias de escola em tempos de confinamento tiveram percursos e finais felizes. Foram muitos os alunos a cujos lares a escola não conseguiu chegar. As desigualdades sociais no acesso à escola acentuaram-se com o fecho dos seus muros e a ausência física dos professores. Mas mesmo as histórias mais felizes não fazem esquecer o sentimento de perda do fecho das escolas. A escola, os professores e a interação face a face dentro da sala de aula são insubstituíveis e, por isso, todos desejamos o regresso duradouro ao ensino presencial, com medidas que acautelem a segurança de alunos, professores e assistentes operacionais.

 

 

Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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