PSICOLOGIA

Ir para o divã

A leitura pode ser poderosa em termos de autoconhecimento e este livro tem potencial para, de uma forma absolutamente divertida, obrigar ao questionamento, quer assumamos o papel de pais, filhos ou ambos.
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Toda a gente sabe que “os homens são feios” e que a relação pais/filhos deixa marcas inapagáveis. Não há borracha, por mais eficaz que seja, que elimine os registos que vão ocorrendo internamente ao longo do processo de desenvolvimento de cada um de nós. A forma como somos educados e os ingredientes que constituem o processo educativo não são anulados totalmente com o processo de transformação a que a vida nos submete com a passagem dos anos. Compreender o peso e avaliar de que forma as nossas vivências de infância e adolescência têm impacto naquilo que somos é que por vezes não é tarefa fácil. Se cada um de nós decidisse remexer no passado talvez encontrasse conexões mais claras entre o que somos e a forma como vivemos o presente. É na aventura de basculhar o passado que se lança Alexandre Portnoy, personagem retratada por Philip Roth no seu livro “O complexo de Portnoy”.

Alexandre vai para o divã do psicanalista em busca de explicação para o vazio das suas relações e para a sua vida atormentada. Trata-se de uma personagem hilariante, apaixonante e inesquecível, bem à medida do seu criador, Philip Roth, escritor norte-americano, que só não foi nomeado Prémio Nobel certamente porque as leis do mundo são tudo menos justas. Alexandre recorre à masturbação de uma forma compulsiva e vive atormentado pela culpa e pelo medo, que ele claramente relaciona com os pais e “o mundo deles”, como a seguir é descrito: “(…) Agora imagine só os tormentos que a minha consciência me fazia passar por todas aquelas punhetas! A culpa, os medos – o terror instilado até ao mais fundo de mim! Quantas coisas no mundo deles é que não estavam carregadas de riscos, cobertas de micróbios, cheias de perigos? Oh, que era feito do ânimo, da ousadia e da coragem? Quem terá metido na cabeça dos meus pais uma conceção tão assustadora da vida? (…)” Para qualquer psi, esta descrição é absolutamente deliciosa porque retrata na perfeição pais com que nos vamos cruzando, aqueles que têm uma linguagem carregada de “tem-cuidado”, “toma-atenção”, “não-faças-isto”, “não-podes-fazer-aquilo”, “para-isso-não”. Filhos ansiosos têm sempre pais que passam a vida a antecipar uma potencial desgraça.

Ainda a propósito da culpa, e porque estamos em férias, não posso deixar de citar outra reflexão cáustica que Portnoy faz relativamente aos pais e que muitos identificarão, dada a semelhança com algo que certamente já ouviram: “Aqueles dois são os maiores produtores e distribuidores de culpa do nosso tempo! Conseguem fazer acumular culpa como uma galinha acumula gordura! «Telefona, Alex. Vem-nos visitar, Alex. Alex, não nos deixes sem notícias. Não saias da cidade sem nos dizeres, por favor, não tornes a fazer isso. (…) Alex, é tão fácil pegar no telefone – e pensa que já não vamos cá estar muito mais tempo para te maçar.»”

Sobre Alexandre recaíam, ainda, as elevadas expectativas dos pais, às quais ele temia não ser capaz de corresponder: “(…) de mim a minha mãe dizia, com a moderação que sempre a caraterizou «Este bonditt? Não precisa sequer de abrir um livro – “Muito bom” em tudo. Albert Einstein Segundo!»”

A leitura pode ser poderosa em termos de autoconhecimento e este livro tem potencial para, de uma forma absolutamente divertida, obrigar ao questionamento, quer assumamos o papel de pais, filhos ou ambos. A sexualidade insaciável de Alexandre é apenas um dos lados da moeda, que, apesar de parecer central, não o é, pois o outro lado é o que, na verdade, é absolutamente comovente e apaixonante, porque nos ajuda a compreender não só a sua insaciabilidade como o que a gera. Permite-nos levantar questões e a refletir sobre elas.

Que pais somos nós? Será que sobre os nossos filhos criamos expectativas tão elevadas que estes se sentem asfixiados? Será que lhes damos espaço para errarem e para gerirem de uma forma positiva o erro? Será que tentamos contrabalançar, com uma visão positiva da vida, as notícias negativas que diária e massivamente nos entram em casa através dos vários meios de comunicação ou carregamos de tons ainda mais negros o mundo que nos rodeia?

Infelizmente, Philip Roth faleceu em 2018. Homens como ele não deveriam morrer; fazem-nos falta os livros que seguramente ele continuaria a escrever. Se está de férias e ainda não leu “O complexo de Portnoy”, fica aqui uma sugestão de leitura que lhe permitirá conhecer a personagem verdadeiramente inesquecível que aqui foi levemente analisada.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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