PSICOLOGIA

COVID -19 – Acompanhamento psicológico em tempos de pandemia

Portugal é o quinto país da OCDE que mais consome antidepressivos e ansiolíticos. Nestes três meses de pandemia já foram vendidos mais de cinco milhões de embalagens destes medicamentos, um número muito superior ao do mesmo período do ano anterior.
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“(…) Para mim, já há muito tempo que havia mundo em demasia. Demasiado, demasiado acelerado, demasiado ruidoso.
Por conseguinte não possuo o “trauma do isolamento” e não sofro pelo facto de não poder encontrar-me com outras pessoas. Não lamento que os cinemas tenham sido encerrados; é-me indiferente que os centros comerciais não estejam abertos. Mas preocupo-me sim, quando penso em todas as pessoas que ficaram sem trabalho. Quando tomei conhecimento da quarentena preventiva, senti uma espécie de alívio e sei que muitas pessoas pensam da mesma maneira, embora tenham vergonha de o dizer. (…) Não se terá dado o caso de termos regressado a um ritmo de vida normal? De o vírus não ser o distúrbio da norma, mas precisamente o contrário - o mundo agitado antes do vírus é que era anormal? (…)”
Texto de Olga Tokarczuk (Prémio Nobel da Literatura) – Edição 2478 (revista do jornal Expresso)

Portugal é o quinto país da OCDE que mais consome antidepressivos e ansiolíticos. Nestes três meses de pandemia já foram vendidos mais de cinco milhões de embalagens destes medicamentos, um número muito superior ao do mesmo período do ano anterior.

As palavras de Olga Tokarczuk e os números relativos à venda de antidepressivos e ansiolíticos conduzem-nos a formas diversas de viver a pandemia. Os privilegiados que não foram alvo de privação económica, nem foram afetados direta ou indiretamente pela doença, poderão rever-se nas palavras da vencedora do prémio Nobel da literatura, o que naturalmente e infelizmente não acontecerá com muitos outros. Enquadrando-me no grupo dos privilegiados, confesso que não me senti esmagada, isolada e traída pelo vírus, mas antes invadida pelos sentimentos que esta escritora polaca tão bem descreve! Adoro conversar com os meus amigos, estar com a família, ir ao cinema, mas a privação temporária de todo este convívio foi percecionada por mim como três pontos e não como um ponto final. Esta situação anómala constituiu uma oportunidade para ler, para pensar e para dar ao cérebro tempo para reciclar ideias, para se questionar, para repensar práticas, inclusivamente profissionais.

Dado este enquadramento, senti-me bem em teletrabalho e com um elevado sentido de responsabilidade relativamente ao contributo que teria de dar a quem o vírus apanhara traiçoeiramente. Não podendo contactar diretamente com as crianças/jovens que acompanhava, “vinguei-me” na videochamada! Constatei rapidamente que o meu desejo de reduzir o impacto do vírus chocava com algo fundamental no exercício profissional da psicologia: a privacidade e sigilo.

Recordo uma videochamada, de certa forma caricata, em que a net me pregou uma partida e a criança que, no início, estava sentada ao lado da mãe, provavelmente na sala, teve de restabelecer a comunicação comigo através de chamada telefónica. Esta forma de comunicação alternativa permitiu-lhe de imediato a fuga para o seu quarto, longe da presença da mãe. Quando chegou a este local onde, finalmente, estávamos sós, afirmou: “Agora já posso falar-te das coisas que os meus pais não gostam que fale” e quando finalizámos o atendimento relembrou: “Pede à minha mãe que a próxima consulta se realize no meu quarto e no meu computador, para que eu possa falar à vontade”.

“Espere um bocadinho, vou fechar a porta, que a minha irmã está ali ao lado”, dizia-me uma outra menina do 2º ciclo, que tenho vindo a acompanhar. O evidente receio de que o que me iria comunicar em privado se tornasse público e a preocupação de que a irmã fosse relatar aos pais os seus desabafos com a psicóloga era mais que evidente.

Num atendimento recente, já no registo presencial, uma criança do 1º ciclo exprimia a sua satisfação por podermos falar no gabinete, pois para além de ter saudades daquele espaço, em casa, quando falava por videochamada, nunca se encontrava só e, por isso, não podia falar de tudo.

Acredito que a minha sanidade mental, que de certa forma foi preservada em tempos de pandemia, poderá ser colocada à prova, pois muito haverá a contar, sobretudo por parte daquelas crianças cujas relações familiares precárias e exiguidade dos espaços em que vivem não deixaram espaço para a fuga.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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