EDUCAÇÃO

Escola em tempos COVID-19

Na escola em tempos COVID, o caminho tem-se feito caminhando. Quanto tempo vai a escola viver em modo COVID? A resposta é desconhecida. Vai ser necessário aperfeiçoar respostas. Mas não há que ter ilusões. A “escola em modo COVID-19” não está a chegar a todas as crianças e jovens nem o poderá fazer de portas fechadas.
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Luís anda no 5.º ano. A escola fechou. O pai e a mãe deixaram de ter trabalho: os clientes já não fazem encomendas. No início, Luís recebia tarefas por mail. Os mails dos professores das várias disciplinas sucediam-se. Ainda pouco capaz de se organizar para responder às solicitações que lhe eram feitas, a tarefa coube aos pais, assim instituídos professores-coadjuvantes. Os primeiros tempos foram mesmo muito aflitivos. As mensagens eletrónicas para Luís e para os pais choviam.

Sara e Tomé andam ambos no 3.º ano. A sua irmã, Luísa, anda no 8.º ano. O pai ficou logo em layoff; a mãe, desde o final de março. Nesta família, apesar de os filhos serem mais, a gestão das suas atividades escolares foi menos complicada. Os gémeos praticamente só têm aulas pela “telescola” e a professora não tem mandado grandes trabalhos. Luísa gosta muito de estudar e, apesar de estar assoberbada de trabalhos, os pais quase não têm de se preocupar com ela, que até gosta de ajudar os irmãos.

A todas estas crianças fazem falta os amigos. Nas duas famílias os pais desdobram-se para tornar o quotidiano das crianças mais divertido: fazem peças de teatro caseiro, com os animais domésticos a contracenar; festivais da canção interfamiliares; vídeos divertidos dessas atividades para mandar à família e amigos.

Pelas duas famílias vou sabendo de meninos das turmas destas crianças que não comparecem às aulas online: “São meninos muito pobres. Não têm computador. Mas eles já eram maus alunos e não ligavam à escola” – explicaram-me.

O fecho das escolas foi uma medida consensual na sociedade portuguesa. Era uma questão de salvaguarda da saúde pública. A resolução do problema foi sendo pensada e rapidamente começaram a ser aplicadas medidas para o resolver. Professores e famílias, de um modo geral, têm feito esforços enormes para minimizar os danos. Não obstante, as “aulas” por plataformas eletrónicas ou pela “telescola” não são verdadeiras aulas, tal como todas as estratégias que puderam ser postas em ação (essas “aulas”, correspondência eletrónica muito regular entre professores e alunos e entre professores e pais, etc.) não são verdadeiramente escola. São a escola possível em tempos COVID-19. Há que reconhecer que a escola, com mais ou menos recursos tecnológicos utilizados dentro ou fora da sala de aula, não dispensa a relação pedagógica presencial entre o professor e os alunos e dos alunos entre si. Ensinar não é apenas uma questão de transmissão de conhecimentos. Ensinar é o cerne da profissão docente, cujo especialista é o professor. Para ensinar, além de conhecer a matéria de ensino, o professor precisa de conhecer os alunos, perceber como eles aprendem melhor e encontrar as estratégias mais adequadas para que eles aprendam. Precisa de criar neles interesse pela aprendizagem; curiosidade pela matéria de ensino; gosto pela realização das tarefas; confiança para acreditarem que são capazes; desenvoltura para colocarem dúvidas; persistência para resolverem problemas. Numa sala de aulas o professor não é um transmissor de conhecimentos dos quais os alunos são meros recetores. O professor cria ambientes de aprendizagem em que os alunos se envolvem na construção do conhecimento e uns com os outros. Os debates em grande grupo e os trabalhos em pequenos grupos são algumas estratégias possíveis.

Na escola em tempos COVID, o caminho tem-se feito caminhando. Quanto tempo vai a escola viver em modo COVID? A resposta é desconhecida. Vai ser necessário aperfeiçoar respostas. Mas não há que ter ilusões. A “escola em modo COVID-19” não está a chegar a todas as crianças e jovens nem o poderá fazer de portas fechadas. E não chega àqueles que a ela estão a ter acesso como a escola tem de chegar, nem o poderá fazer de portas fechadas. Sendo certo que, em tempos COVID o fecho das escolas é necessário, não se pode esperar nem exigir nem considerar que a aprendizagem na escola em tempos COVID – a escola à distância – seja equivalente à de um verdadeiro ano escolar.

Uma nota final para enaltecer o esforço imenso que os professores têm feito para se atualizarem em tempo recorde, aprendendo a trabalhar com plataformas eletrónicas e a preparar aulas nesse formato; e para manterem comunicação frequente com todos os alunos e todos os pais.

Quem não anseia por um regresso rápido à escola, feito em tempos pós-COVID?






 

Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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