PSICOLOGIA

COVID-19 – Em busca de um sentido

“Você não é o produto das circunstâncias, você é o produto das suas decisões.”
Viktor Frankl
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Viktor E. Frankl foi um psiquiatra e neurologista austríaco, fundador da Logoterapia, uma forma de psicanálise existencial. Sobrevivente dos campos de concentração Theresienstadt, Bergen-Belsen e Dachau, usou a sua experiência do Holocausto como base para a sua conceção de vida e intervenção psicoterapêutica. A sua obra é reconhecida mundialmente.

Em situação extrema e subumana, marcada por fome, frio, privação de sono, trabalho permanente e árduo e morte de quase todos os familiares, este homem procurou e encontrou um sentido para a vida e descobriu quem são os que habitualmente sobrevivem em situações profundamente adversas. Esta capacidade de procurar sentido onde parece ser impossível a sua existência torna este homem numa profunda fonte de inspiração.

Segundo Frankl, “Nós podemos descobrir o significado da vida de três maneiras diferentes: fazendo alguma coisa, experimentando um valor ou o amor, e sofrendo”. Pensar na teoria deste homem que, perante a adversidade, não se deixou abater, e relembrar o seu legado, que resultou de uma dura aprendizagem, poderá ser útil nestes dias, em que um “ser” implacável, invisível e mortífero, alterou adversamente a vida da humanidade. Este poderá ser um momento histórico em que muitos se irão questionar sobre o sentido da vida; não digo “todos”, pois bastantes não serão confrontados com situações suficientemente adversas para que façam esta reflexão. Sejamos justos, ficar em casa – apesar de estar a ser uma experiência difícil para muitos e até muito árdua para alguns – não irá provocar mudanças consistentes, ao nível dos comportamentos e atitudes, e muitos sairão de toda esta crise, relativamente bem, pelo menos a curto prazo, pois o futuro reveste-se de muitas incertezas. Na verdade, haverá um elevado número de pessoas que, apesar de terem enfrentado desafios complexos dentro de quatro paredes – alguns certamente nada fáceis –, serão capazes de, com relativa facilidade, retomarem as suas rotinas. Acabarão por relembrar esta fase sobretudo como um momento duro de confinamento.

Para outros, ficar em casa terá certamente consequências bem diferentes, em termos de exigência e crescimento pessoal, dado que, por algum motivo, estão desprotegidos. A violência doméstica e a instabilidade familiar pouco propícias ao bem-estar infantil, das mulheres, dos doentes mentais e dos mais velhos estarão certamente bem presentes em muitas vidas, a deixar as suas marcas e estragos, embora de uma forma mais silenciosa. Penso em algumas crianças que acompanho com muito medo e angústia.

Em sofrimento elevado e, portanto, também desprotegidos estão muitos adultos cujo sono é perturbado em cada dia, porque as contas que fazem mentalmente não dão para garantir os bens indispensáveis à subsistência e para assegurar despesas essenciais ao relativo bem-estar. Igualmente em casa estão também muitos doentes, receando pela sua vida e pela segurança dos que consigo habitam. Particularmente dura é a situação dos enlutados, que estarão dolorosamente a questionar o sentido da vida, até porque o processo de luto é, nestas circunstâncias, agravadíssimo pela impossibilidade de proximidade direta e física com familiares e amigos e de realizar os rituais que ajudam a atenuar o capítulo da perda.

Estar em casa pode ter assim significados muito diversos e é justo que sejam sublinhados.

Para lá da clausura, estão os que enfrentam a batalha na linha da frente, e que todos os dias vivem lado a lado com o inimigo, numa luta profundamente agressiva, quantas vezes a ter de decidir entre a vida e a morte. Estes são os que mais duramente são postos à prova e, por isso, mais suscetíveis de transformação. Estes, certamente refletirão muitas vezes sobre o sentido da vida para resistirem porque, se não o fizerem, tudo será ainda mais doloroso e insuportável e a necessidade de tratamento psicológico/psiquiátrico no pós-pandemia, ainda mais inevitável.

A todos os que atualmente, e dadas as circunstâncias, foram obrigados a deixar as suas vidas em suspenso, lutando agora por sobreviver deixo, como conclusão, a reflexão de Viktor Frankle. Segundo ele, os sobreviventes dos campos de concentração eram aqueles que criavam para si próprios um objetivo, que encontravam um sentido futuro para a existência. Neste âmbito cada um terá de procurar e encontrar o seu.






 

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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