EDUCAÇÃO

Quem conta um conto… Quem ouve um conto…

Quem conta um conto faz da linguagem uma varinha mágica. Quem conta um conto semeia criatividade. Quem conta um conto faz nascer mundos de fantasia. Quem conta um conto cria realidades alternativas. Quem conta um conto reparte afeto.
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Quem ouve um conto fica preso nas palavras que fluem. Quem ouve um conto fica deslumbrado pela magia que dele emana. Quem ouve um conto fica cativado pela realidade alternativa que se vai desenrolando. Quem ouve um conto fica seduzido pelo afeto que o envolve.

Mas quem ouve um conto também conta um conto. Pode contá-lo só mentalmente na antecipação que vai fazendo dos acontecimentos ou nas alternativas que dele cria após o ter escutado. Pode contá-lo, literalmente falando, se quem conta o envolver nesse processo. A estrutura narrativa de diversos contos tradicionais, em que se repetem frases, versos ou lengalengas, a isso apela. Quantas vezes o contador incentiva essa participação através de perguntas; de pedidos de produção de sons do vento, de vozes de animais, de respostas a perguntas; de pedidos para realização de tarefas como bater palmas ou fazer gestos para afugentar personagens más? A cumplicidade entre contador-ouvidor(es) é tão envolvente quanto natural e indissociável, a tal ponto que uns não podem existir sem os outros.

Com que idade se pode ser contador? Em que circunstâncias se pode ser contador? Num sentido lato, todos somos contadores. Todos contamos pequenas ou grandes histórias do nosso quotidiano. Todos temos histórias para explicarmos o que nos acontece. Num sentido mais estrito, pode ser também bem cedo que o poder de contar histórias se faz sentir; como pode ressurgir de modo consciente apenas numa fase bem mais tardia das nossas vidas. Ele mora na imaginação, na fabulação das ideias, na fluidez entretecida da linguagem, nas emoções que desperta, nos sentidos que acorda, no afeto de que se envolve.

E com que idade se gosta de ouvir histórias, se pode ser ouvidor? Não há, seguramente, idade em que tal não aconteça. Poderá haver falta de hábito, mas o gosto mora lá, no coração e nas emoções, à espera de ser despertado. Ouvir histórias do quotidiano é um gosto maior ou menor que nos acompanha sempre. Ouvir histórias num contexto formal (formal apenas no sentido em que se trata de um evento num local predefinido e com um horário e um contador anunciados) é uma prática que o senso comum pensará ser para crianças. Mas os adultos que têm a oportunidade de a experienciar – em sessões para crianças acompanhadas de adultos, ou em sessões destinadas apenas a adultos – perceberá com pensamentos e emoções que as histórias cativam todas as idades.

Nas escolas a prática de narração de histórias tem vindo a ganhar espaço crescente. Na família todos podem ganhar com a criação desse hábito. As histórias narradas pelo adulto à criança, pela criança ao adulto ou co-construídas por ambos são um bom companheiro tanto nos momentos de lazer mais comezinhos quanto em situações mais difíceis, como sejam a sala de espera para uma consulta ou viagens longas e fastidiosas. E que melhor passaporte para o sono de crianças pequenas, mesmo que ainda bebés, do que uma história ouvida na voz afetuosa do pai ou da mãe, aquela voz ternurenta e embaladora, que se faz acompanhar de um amor e de um carinho incondicionais e tranquilizadores?

Contar histórias. Ouvir histórias. Partilhar-construir-sentir o poder da linguagem e da imaginação, partilhar-construir sonhos, partilhar-construir ideias, partilhar-construir mundos, partilhar-construir afetos.  

Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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