EDUCAÇÃO

2020: O primeiro ano do resto da minha vida

Olho para o futuro com confiança e com a certeza de ter tomado a decisão certa. Desejo, contudo, que as condições de aposentação se tornem justas; que à profissão docente seja atribuído e reconhecido socialmente o seu real valor e que os professores sejam respeitados; que a renovação geracional do corpo docente nas escolas seja uma realidade. Desejo um ano bom para a escola pública, que é como quem diz para a educação das nossas crianças.
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Despedi-me de 2019 com uma esperança no futuro que há muito não conhecia. 2020 é o primeiro ano do resto da minha vida. No ar, desafios e projetos em descoberta ou a descobrir, a agarrar e a viver.

Os dias têm mais cor; a face, um sorriso franco; os músculos, menos tensão; a vida, projetos novos; o tempo, uma medida diferente; a carteira e a conta bancária… menos peso. Estou aposentada, desde 1 de dezembro, aos 62 anos de idade e 39 anos de serviço, dez anos depois de o esgotamento ter começado a marcar presença, dando paulatinamente lugar ao burnout, que se foi instalando cada vez com maior intensidade – nos primeiros anos resistindo a/recusando meter baixas médicas, mas já não o conseguindo fazer nos últimos três anos letivos. Três anos em que períodos de ausência prolongada da escola alternavam com períodos (normalmente um período letivo) de trabalho penoso. Três anos em que fui compreendendo, com as emoções e o corpo, que, do meu ponto de vista, cada vez menos estava a ser professora e não queria despedir-me da profissão com essa amargura crescente e com a saúde cada vez mais deteriorada.

***

Agosto de 2019:

Dias de ansiedade. Cada regresso à escola (após períodos prolongados de ausência por doença) tem sido pior do que o anterior. Dores musculares; queda de cabelo; dores de cabeça; dificuldade em dormir; cansaço permanente; frequentemente episódios de (quase) desmaio na escola, no fim de aulas a turmas mais indisciplinadas ou em pleno ato de direção de reuniões, cuja sobrecarga burocrática se inicia vários dias antes, atinge o cume no seu decurso e se prolonga para lá do seu fim. Saúde a reclamar tréguas. Pedido de aposentação antecipada como única solução à vista. Reverso da medalha: redução de cerca de 35% no valor da aposentação, 39 anos de serviço depois, 4 anos antes de atingir a (cruel e inadequada) idade de aposentação; sensação de desvalorização, de humilhação. Vence a vontade de preservar a saúde.

2 de setembro de 2019:

Apresentação do pedido de aposentação antecipada. Sentimento de revolta e de injustiça no ato de entrega. Sensação de alívio e de leveza, crescentes com o passar dos dias.

21 de outubro de 2019:

Comunicação, pela Caixa Geral de Aposentações, do valor da pensão, acompanhado da atribuição de algum tempo de reflexão para a sua aceitação, a que se seguiria a conclusão do processo de atribuição de aposentação no início de novembro.

As emoções traem-nos, pregam-nos partidas. Pensei que tinha dirimido todos os sentimentos negativos associados aos últimos anos de profissão e às condições injustas de (antecipação da) aposentação, no mês de agosto. Não podia, pois, imaginar que iria ficar tolhida. A escrita foi a primeira estratégia para tentar controlar as emoções e retomar o domínio de mim própria. Daquilo que então escrevi, partilho um pouco do que me avassalou: “Sinto-me expulsa da profissão. Sinto-me a sair pela porta dos fundos. Foi minha a decisão de sair. Mas a escolha entre sair e ficar era como a escolha entre ter ar para respirar ou morrer por asfixia lenta e dolorosa. A escolha não é livre quando os termos são estes.”

Dia 22 de outubro e seguintes

Acordei feliz. O mundo parece ter outra cor, outras cores, todas mais vivas, mais alegres. Dos 39 anos de profissão, os últimos tornaram-se ténues e os restantes – a maior parte, aqueles em que me senti professora – ganharam cores e visibilidade que tinham perdido. É desses que me lembro. Era desses que antes me queria lembrar e não conseguia.

De baixa médica, enquanto aguardo o dia 1 de dezembro (primeiro dia na condição de aposentada), vejo-me no espelho e encontro um sorriso e um brilho nos olhos, que andavam perdidos. Revejo-os espelhados nos olhos de quem olha para mim.

Dia 1 de dezembro de 2019 e seguintes, até ao presente

Chegou o dia 1 de dezembro e, com ele, uma nova etapa de vida: a aposentação. Exploro o futuro com entusiasmo, confiança e felicidade. Experimento e aprofundo ideias, temas e atividades de que sempre gostei mas que nunca pude abraçar porque o trabalho não o permitia. Não sei ainda o que vou fazer, nem isso me preocupa. Para já, exploro. E isso é tão bom. O tempo ganhou outra dimensão: sem pressa e sem pressão. A aposentação não é o tempo de parar de viver. A aposentação é um tempo de fazer coisas de que se gosta, já sonhadas ou desconhecidas até então, e de viver com gosto e intensidade; um tempo em que o tempo deve perder pressão; um tempo de vida merecido que deve ser vivido com qualidade e saúde, que só uma idade de reforma justa pode permitir.

***

Este foi o primeiro ano, desde há muitos, em cuja entrada não tive como desejo principal aposentar-me (no termo da carreira; tratada com dignidade). Olho para o futuro com confiança e com a certeza de ter tomado a decisão certa. Desejo, contudo, que as condições de aposentação se tornem justas; que à profissão docente seja atribuído e reconhecido socialmente o seu real valor e que os professores sejam respeitados; que a renovação geracional do corpo docente nas escolas seja uma realidade. Desejo um ano bom para a escola pública, que é como quem diz para a educação das nossas crianças.

Bom 2020!

Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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