PSICOLOGIA

Grupos de WhatsApp dos pais: medo?!

“Tive más experiências em comunidades de trabalho no WhatsApp. Por isso decidi propor a criação de ‘regras de convivência e bom uso” para os três grupos em que participo no colégio onde os meus três filhos estudam. As normas estipulam, por exemplo, que perguntas para um destinatário específico devem ser feitas em particular, não no espaço, que não é aceitável o envio de correntes, orações, imagens e outras mensagens que não tenham a ver com o colégio. Cabe ao moderador relembrar as normas quando alguém se excede.”
Eloi Prado De Assis, pai de estudante do Colégio Humboldt em São Paulo
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Não vale a pena demonizar o que já faz parte da realidade: os pais cada vez mais comunicam usando as novas tecnologias, nomeadamente através dos grupos do WhatsApp. Não me parece possível nem viável tentar restringir o uso deste aplicativo. Por isso, a atitude mais inteligente será olhá-lo como uma oportunidade e não como um inimigo a abater, até porque este “ser nocivo” não é abatível! “No nosso tempo é que era bom, não havia nada destas coisas”: pois é, mas agora há e então o que fazer?

A experiência que muitos terão relativamente a estes grupos poderá não ser positiva, pois comunicar com pessoas, muitas delas desconhecidas, não é o mesmo que comunicar com pessoas próximas. Frequentemente acontece que o que está escrito não é que o recetor interpretou, até porque a interpretação da informação, mesmo daquela que parece objetiva, é baseada nas experiências pessoais. Um acontecimento sem grande gravidade, quando transportado para estes grupos, pode ganhar proporções perfeitamente desmesuradas. Recentemente, um pai dum destes grupos dizia-me: “Eu, que estou na escola (o seu contexto de trabalho), ao ler as mensagens dos outros pais, parece-me que algo grave se está a passar. Mas, na verdade, os conflitos que observo entre os alunos desta turma são perfeitamente ajustados a crianças destas idades. Decidi abandonar o grupo”.

Fernanda Flores, diretora pedagógica da Escola da Vila, em São Paulo, usou o blog da instituição, dado este ser um dos canais mais populares de comunicação, para convidar os pais para um debate, publicando o post “Mães e pais: precisamos conversar sobre o WhatsApp”. Parece-me que teremos de encontrar momentos em que se possa refletir sobre esta temática, pois é muito fácil e tentador entrar num destes grupos, sem previamente pensar no que isso implica.

Pensando nas palavras do pai com que iniciei esta reflexão: não deverá haver pais moderadores destes grupos? Por exemplo, os pais que são representantes das turmas, uma vez que estes participam mais ativamente em reuniões que envolvem os professores, não poderiam assumir este papel? Esta é uma hipótese possível e viável e posso afirmá-lo por experiência própria. Após reunião com as representantes dos pais de uma turma em alvoroço, ampliado pela conversa descontextualizada dos pais no WhatsApp, a acalmia chegou e o caos que se estava a instalar serenou. Não foi pedido às representantes dos pais para extinguirem o grupo, mas para servirem de moderadoras e sensibilizarem os pais para a importância da comunicação com a escola através do contato direto com a diretora de turma.

As reuniões que os professores titulares ou diretores de turma realizam com os pais poderão ser outros momentos a aproveitar para os sensibilizar para as regras básicas que devem reger a utilização do aplicativo de que temos vindo a falar. Poderão ser focadas vantagens, mas também sublinhados os riscos. Adicionalmente podem ser sugeridas regras concretas, como as propostas por Eloi Prado De Assis no seu colégio. Contudo, há que ter o cuidado de que, estando-se a falar de grupos de pais, os professores não podem ter uma atitude de sobranceria nem de imposição, mas antes de fornecimento de uma oportunidade de troca de ideias a pais que têm dificuldade em se encontrar presencialmente e debaterem temas cara a cara.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.” Num mundo em mudança acelerada, só temos uma alternativa: adaptarmo-nos, encontrando estratégias para que o que nos parece incontornavelmente maléfico afinal não o seja assim tanto!
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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