EDUCAÇÃO

Babysitters tecnológicos

Como se pode trocar o prazer da interação com as crianças (que – concordo - às vezes solicitam os adultos em excesso, testando os limites da sua paciência) pelo sossego da leitura do jornal, obtido a custo da atração exercida sobre elas pelos ecrãs?
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Início do mês de setembro. Creches e jardins de infância, ainda por abrir, em muitos casos. Pais já a trabalhar, chegou a vez de os avós ficarem com os netos. Se os há a passear com os rebentos, a conversar com eles nas esplanadas, a contar-lhes histórias ou a brincar, também os há a quererem manter a sua rotina. São aqueles que, com o seu cafezinho matinal, não dispensam a leitura tranquila do seu jornal. Entram em cena uns tablets coloridos em cujos ecrãs se movimentam bonecos acompanhados de sons irritantes que servem de companhia aos netos. De há anos para cá venho observando este estranho comportamento.

Aquilo que observo com os avós no início de setembro acontece com pais ao fim de semana ao longo de todo o ano. E dou por mim a pensar “Como se pode entregar o entretimento das crianças a uma máquina, ainda por cima, viciante? Como se pode trocar o prazer da interação com as crianças (que – concordo - às vezes solicitam os adultos em excesso, testando os limites da sua paciência) pelo sossego da leitura do jornal, obtido a custo da atração exercida sobre elas pelos ecrãs?

Muito se fala sobre o tempo excessivo consumido pelos jovens nas redes sociais e dos riscos associados. Pouco se fala do que sucede em idades muito precoces. Num artigo do jornal O Público, de 16/10/2018, intitulado “Pais usam telemóveis e tablets como babysitters”, dá-se conta de um interessante estudo designado Happy Kids: Aplicações Seguras e Benéficas para Crianças, do Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing (CRC-W), da Universidade Católica Portuguesa. As 1968 respostas ao inquérito do estudo, que foram validadas, situavam os respondentes na região de Lisboa, sendo maioritariamente mães e licenciado/as. Além da enorme percentagem que manifesta deixar que os seus filhos utilizem dispositivos eletrónicos (tablets ou smartphones, por exemplo), uma idade em que tal acontece com grande frequência, e por iniciativa dos próprios pais, situa-se entre os zero e os dois anos. As novas babysitters são as apps, que mantêm as crianças entretidas em casa, libertando os pais para as suas tarefas domésticas; nos restaurantes, dando sossego aos adultos. Embora estes pais demonstrem preocupações educativas com as apps que selecionam, estes resultados parecem-me preocupantes. Se a televisão se me afigura totalmente dispensável – e até nefasta - em idades tão precoces, pior considero ser a utilização destes recursos tecnológicos, principalmente, de modo regular.

Frequentemente ouço pais e leio artigos em revistas exprimindo fundamentada preocupação com os perigos da excessiva e pouco controlada/ dificilmente controlável ligação das crianças e jovens à Internet e às redes sociais. Não duvidando das boas intenções e razões por trás do recurso a babysitters eletrónicos, proponho uma reflexão sobre as implicações a curto e médio prazo para as crianças pequenas desta sua viciante exposição aos ecrãs.
Armanda ZenhasDoutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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