PSICOLOGIA

Está fora ou dentro?

Ver de fora determinadas circunstâncias da vida quando se está dentro dela é uma missão extraordinariamente difícil. Quem vê com uma visão “de fora” são habitualmente os outros, que olham a realidade de um prisma mais racional. Quem está dentro usa e abusa da perceção que lhe chega através dos sentimentos.
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Porque olhamos determinadas decisões humanas com estranheza? Porque miramos o comportamento do outro e facilmente o criticamos? Porque nos custa, muitas vezes, aceitar ou até mesmo compreender o que nos dizem sobre nós? O que diferencia quem observa a vida dos outros (os de fora) de quem a sente vivendo (os que estão dentro)? De certeza que já assumiu tanto o papel de dentro como o de fora. E é particularmente assumindo esse olhar de fora que as palavras que se seguem farão algum sentido.

Ver de fora determinadas circunstâncias da vida quando se está dentro dela é uma missão extraordinariamente difícil. Quem vê com uma visão “de fora” são habitualmente os outros, que olham a realidade de um prisma mais racional. Quem está dentro usa e abusa da perceção que lhe chega através dos sentimentos. Se quem está fora, vem alertar quem está dentro de que está a ver a realidade de uma forma subvertida, sem antes tentar perceber o que este sente, é de imediato banido! Tudo o que cheira a moralidade conduz ao total encerramento de quem está dentro, que de imediato questiona: que sabe ele do que sinto?

Frequentemente, quem está dentro da sua história sente que algumas peças não encaixam no puzzle, porque um comportamento ou outro entram em conflito com a imagem que se construiu do outro ou com a construção idealizada do eu. Face a este desencontro poderá haver duas atitudes, ou de questionamento e procura ou de total abstracção. As peças não encaixam, e depois? Sou feliz ou, pelo menos, tenho momentos em que o sou.

A grande questão que se coloca é: mas afinal como poderá quem está fora ajudar quem está dentro a ver a realidade/ o outro lado desta? Em primeiro lugar, é fundamental perceber se quem está dentro tem abertura para se olhar como se estivesse de fora; e se tem recetividade para ver a tentativa de entrada de quem está de fora do seu mundo como uma não intrusão. Os intrusos não têm estatuto para entrar, pois ativam de imediato todos os anticorpos. Mas se quem está dentro anda desesperado à procura da peça, da tal peça que falta para dar coerência à sua história, então talvez alcance a capacidade de se ver como se estivesse de fora, estando dentro.

Recentemente dizia-me uma amiga, psicóloga clínica e sexóloga, com uma longa experiência, que a mais dura batalha que via os seus clientes travarem era entre o que se pensa e o que se sente e que os grandes vencedores eram sempre os sentimentos. Apesar da intuição ou da certeza dos dados fornecidos pela razão, os sentimentos acabavam por impor a sua leitura e orientar para um determinado percurso. Quem está fora pode ser uma ajuda se fizer boas perguntas; aliás, os bons psicólogos são os que colocam boas questões e não os que dão boas respostas. Mas as boas respostas só surgem na sequência da inquietação de quem quer encontrar a chave para as suas dissonâncias internas. Os outros podem ajudar mas, as respostas, só a própria pessoa as poderá encontrar, ganhando coragem para se olhar corajosamente de fora, pois estar dentro, apesar de tudo, pode ser fortemente protetor.

Quebrar com o que se viveu pode implicar lutos e o luto é um processo doloroso, que queremos evitar! É que a peça que faltava pode doer muito a encaixar, e a eureka pode ser a descoberta de algo desestruturante, que obrigará a seguir outro caminho, quebrando com o que o anterior tinha de bom. O grande dilema está lançado. O bom e o mau convivem lado a lado. Quem está fora está mais atento ao negativo, quem está dentro prefere ver o positivo para não ter que se impor ruturas.

Independentemente das conclusões, uma coisa é certa: é sempre mais fácil estar fora e não ter de olhar para dentro, sobretudo quando o dentro é a sua própria vida!!!

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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