EDUCAÇÃO

Como descobri o(s) Descobrimento(s) da Madeira e o que nele(s) se descobre

Aprendi nas aulas de História de Portugal, ainda antes do 25 de abril de 1974, que a Ilha da Madeira fora descoberta, em 1419, por João Gonçalves Zarco, Bartolomeu Perestrelo e Tristão Vaz Teixeira. Assinalaram-se 600 anos sobre a data desse descobrimento no dia 1 de julho do corrente ano.
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Lendo uma reportagem sobre o tema, no jornal Público, do dia 30 de junho, aprendi que tal versão histórica não é única nem colhe unanimidade na academia. E redescobri uma versão lendária, a propósito da qual me ocorreu o presente texto. Se eu ignorava que as ilhas da Madeira e de Porto Santo surgiam cartografadas já no séc. XIV, prova de que já eram conhecidas antes de os citados navegadores portugueses lá chegarem, não me era estranha a versão lendária da sua descoberta. Uma versão que envolve um amor proibido entre um cavaleiro inglês, Robert Machim, e uma dama também inglesa, Ana de Arfet.
Como descobri a versão lendária primeiro do que as diversas versões históricas? Li-a num poema de um poeta popular, falecido em 1960. Corriam os anos 80 do século passado, quando, no início da minha carreira profissional, fui destacada como professora de educação de adultos para a aldeia de Vilar, Vila do Conde, terra natal deste poeta. Ao ouvir falar dele, dediquei-me à recolha da sua obra e de dados sobre a sua vida. E assim fiquei a saber que se tratava de um carpinteiro, analfabeto até aos 18 anos, “Pois na idade de ir p’ra escola/ [Ele] já andava a trabalhar!”1, que, tendo ido trabalhar para o Porto, “[Procurou] escolas noturnas…/ [Principiou] a estudar.”2 Apesar de ter aprendido a ler e a escrever em idade já tão avançada, não mais parou de estudar e dedicou-se ainda a ensinar a ler e a escrever outros conterrâneos seus. A sua obra mostra a vastidão de conhecimentos que adquiriu em diferentes áreas do conhecimento. Ele próprio dá conta da sua ânsia de saber, confessando que “Queria ler muitas obras/ Mas os livros no livreiro/ Não estavam ao alcance/ Da bolsa dum carpinteiro”3. E foi assim que “[Foi] pelos alfarrabistas/ [Comprou] velhos alfarrábios/ Lendo por pequenos preços/ As obras dos grandes sábios”4.

A descoberta casual da Ilha da Madeira pelos ingleses “Ana de Arfet, donzela/ Que era rica e muito bela”5 e “Machim, moço de alma nobre”6 decorreu da sua fuga de barco para poderem viver um amor que a sociedade da época lhes proibia. Atracaram junto a uma bela ilha, a Ilha da Madeira, mas a sorte não lhes sorriu. A caravela soltou-se e navegou para longe “E [a donzela], num convulsivo choro/ Abraçou-se ao namoro,/ Disse-lhe adeus, e morreu!” Machim, em grande sofrimento, “Beija-lhe as faces já frias,/ Caindo então desmaiado,/ Ficou estendido a seu lado…/ Morreu daí a dois dias.”7 Esta lenda continua a ser celebrada na Ilha da Madeira, como se pode comprovar navegando na Internet.

A história de vida de Joaquim Moreira da Silva desmente provérbios como “Burro velho não aprende línguas” ou ideias feitas fatalistas e muito comuns como “Não nasci para os estudos”, “Oh, filho, sais mesmo a mim e ao teu pai. Nunca vais aprender Matemática.” Esta história de vida comprova e reforça provérbios laudatórios do poder transformador da vontade e do esforço, como: “Nunca é tarde para aprender.”, “Aprende, pratica e serás mestre.”, “Mais vale aprender velho que morrer néscio.”, ”Querer é poder.” ou “Com trabalho e perseverança, tudo se alcança.”


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1In Zenhas, A. (1987). Joaquim Moreira da Silva: Antologia poética (p. 361). Vila do Conde: Câmara Municipal de Vila do Conde.
2Idem (p. 361).
3Idem (p. 362).
4Idem (p. 362).
5In Moreira da Silva, J. (1998). Poesias: Joaquim Moreira da Silva – O poeta carpinteiro (p. 59). Vila do Conde: Câmara Municipal de Vila do Conde.
6Idem (p.59).
7Idem (p. 60).
Armanda ZenhasDoutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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