PSICOLOGIA

Os jovens mais desejados pelos empregadores: Quem são?

“Dia 9 de setembro, quinta-feira: Começámos a limpar um pouco o Banco de Urgência Geral, conforme nos tinham pedido as Irmãs e o Diretor da Pediatria. Até para “craques” como nós, é trabalho demorado pois há muito a fazer. Como em todos os dias desta semana, e já por várias vezes, estiveram a ajudar-nos alguns dos nossos amigos guineenses: “os sizas”. Dia 10 de setembro: O dia ficou mais triste pela morte da Quinta, uma doente que acompanhávamos desde a chegada e cuja mãe se tornou muito nossa amiga (…).”
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
GAS Guiné 1993 (Relato que consta de uma carta enviada aos pais dos jovens universitários que, em 1993, participaram no Gas África - Grupo de Ação Social em África).

Para quem não viveu o GAS Guiné em agosto e setembro de 1993, nem teve qualquer experiência no âmbito do projeto GAS África, esta descrição será certamente neutra ou insignificante. Para quem lá esteve, o relato anterior despertará emoções profundas porque a experiência foi inesquecível e definitivamente marcante. Quando encontrei a descrição destes e de outros dias, no fundo de uma gaveta, na casa dos meus pais, foi o “delírio”, porque a minha memória encontrou imagens que o tempo deixara subterradas. Por momentos, estava novamente em diferentes espaços de Bissau: no Hospital Josina Machel a apoiar os doentes e a fazer limpeza; na nossa casinha em Bissau a disputar a vez de chupar caroços de mangas ou a competir por bacias/ alguidares (usando a terminologia dos lisboetas do grupo), que alguém usurpava para pôr roupa de molho e só tardiamente libertava; ou, então, em viagem em cima de uma carrinha de caixa aberta a sentir a chuva e o ar húmido no rosto, chocalhada permanentemente pelos solavancos, motivados pelos múltiplos buracos das estradas de terra batida. Quem fez esta experiência de voluntariado ficou cativada por ela e, quando se cria laços, nada fica igual. Cito, a propósito, o que dissera a raposa ao Principezinho, no livro de Antoine de Saint-Exupéry: “Os campos de trigo não me fazem lembrar nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando tu me tiveres cativado, vai ser maravilhoso! O trigo é dourado e há de fazer-me lembrar de ti (…) ”. Cativar significa acabar com a neutralidade e sei que, por ter vivido esta experiência, deixei de ser neutra na forma como vislumbro a vida e a experiencio.

Não é por acaso que, nos momentos de recrutamento, o empregador não olha só para as médias finais de curso mas analisa também as atividades extracurriculares, nomeadamente atividades de voluntariado, viagens realizadas, estágios de verão e todo o tipo de experiências diferenciadoras. A revista Sábado, nº789 (12 a 18 de junho de 2019) tem em destaque um interessante artigo sobre “Os alunos que as empresas procuram”, em que claramente se percebe a importância que estas dão a tudo o que os jovens fazem para além da sala de aula. Na verdade, estas experiências marcam a diferença, porque promovem outro tipo de competências, nomeadamente as previstas no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Não chega saber muita teoria; é fundamental saber estar, comunicar, relacionar, ser flexível…. A participação nos projetos GAS Guiné e, no ano seguinte, GAS Angola tornaram-me diferente e garantiram-me o acesso a aprendizagens que não seria possível adquirir unicamente pela frequência de aulas.

Agora que as férias estão aí, ou quase, é importante incentivar os mais novos a enriquecer o currículo. Ficar o tempo todo deitado ao sol é um mau investimento; há que motivá-los a ir à descoberta de novas experiências e a contactar com novas realidades. Só saindo da nossa zona de conforto será possível crescer e ver mais além! A este nível posso falar pela experiência vivida na primeira pessoa.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.