EDUCAÇÃO

Quando a escola “vira” saudade

Quando eu saía ao fim da tarde, lá estava o Senhor Américo a entregar aos pais as crianças do 1º ciclo. Todas o conheciam pelo nome, com todas ele tinha palavras meigas e bem-humoradas ou uma brincadeira pronta a sair. Ele era/é um rosto da escola. E é de profissionais assim que se constrói uma escola.
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Como é difícil transpor aquela porta ao fim da tarde! A escola “vira” saudade. E a saudade dói e a escola fica incompleta. Eu estava doente quando ele partiu. Foi a casa que me chegou esse choque. O Senhor Américo, o assistente operacional que era, para mim, não apenas um profissional da mesma escola que eu, mas um verdadeiro amigo. Uma amizade forjada na cumplicidade do trabalho feito em articulação, cada um nas suas funções; uma amizade forjada na forma prestável, simpática, sempre disponível com que dava a ajuda que lhe era solicitada (e a que não o era mas que ele adivinhava necessária); uma amizade forjada nos cinco anos em que acumulámos outras funções: eu, professora e diretora de turma da sua filha (hoje, uma grande amiga), e ele, o pai e encarregado de educação; uma amizade forjada nas inúmeras conversas pessoais em que nos apoiávamos um ao outro nos momentos mais difíceis.

Quando eu saía ao fim da tarde, lá estava o Senhor Américo a entregar aos pais as crianças do 1º ciclo. Todas o conheciam pelo nome, com todas ele tinha palavras meigas e bem-humoradas ou uma brincadeira pronta a sair. A todos os pais se dirigia com igual cordialidade. O Senhor Américo tinha carisma. Ele era/é um rosto da escola. E é de profissionais assim que se constrói uma escola.

No seu velório, junto da sua filha, a minha ex-aluna, agora já adulta, vi a quantidade de crianças de 1º e 2º ciclos, acompanhadas das mães, ou de 3º ciclo, já sozinhas, que foram prestar homenagem ao Senhor Américo. Algumas levavam o rosto lavado em lágrimas. A todas, a filha do Senhor Américo confortava, com ternura, assegurando-lhes que ele sempre tinha gostado muito delas; a todas pedia que estudassem muito, pois era isso que o seu pai desejava para elas.

Num gesto pouco comum, o Agrupamento promoveu uma homenagem ao Senhor Américo, na qual intervieram alunos, assistentes operacionais, professores, associações de pais, diversos organismos e entidades do Agrupamento e da comunidade local. Foi comovente ver a intensidade e a abrangência com que o Senhor Américo marcou positivamente tantas vidas e como ficou no coração de tantas gerações de alunos.

O Senhor Américo, um assistente operacional. Um profissional de alto gabarito, pertencente a uma classe tão desvalorizado. O Senhor Américo, um homem nobre um verdadeiro Senhor, na sua modéstia sincera e no seu sorriso brincalhão. O Senhor Américo, um rosto marcante de uma escola.
Armanda ZenhasDoutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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Comentários
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Homenagem
José Carlos
De facto, o Agrupamento promoveu a homenagem ao assistente operacional, Américo Maia, com todo o mérito e justiça. O Srº Américo, foi uma pessoa sempre atenciosa, pronta e disponível com todas as pessoas e com a escola, ao longo de mais de 30 anos de dedicação aos outros. Sem dúvida que deixou a sua marca em todo o Agrupamento. Deixou saudade e ao mesmo tempo uma certa inconformidade em todos nós, por ter partido tão cedo. Mas é no tempo que se perpetua a sua memória. Afinal , o que é o tempo? Stº Agostinho, filosofo dos primeiros séculos do cristianismo, dizia que: " o tempo é o passado, presente e futuro". É nesta tríade, que as memórias do Srº Américo. estão presentes na nossa escola.
22-05-2019
 
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