PSICOLOGIA

Dependências sem substâncias

Não são só as pessoas que, de forma quase discreta, entram por vezes na vida umas das outras; também certos rituais/comportamentos ou substâncias se podem instalar de forma lenta, progressiva e silenciosa, limitando a capacidade de agir racionalmente.
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¿“ (…) O terceiro me chegou como quem chega do nada. Ele não me trouxe nada, também nada perguntou.
Mal sei como se chama, mas entendo o que ele quer.
Se deitou na minha cama e me chama de mulher.
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não, se instalou feito um posseiro dentro de meu coração.”


Teresinha: Música de Chico Buarque, composta no feminino e interpretada de maneira fenomenal, por Maria Betânia


Apesar de a letra desta fabulosa canção falar de três homens, apenas me interessa o terceiro. Cada um deles tenta, à sua maneira, entrar na vida de uma mulher, mas só o terceiro o consegue, porque entra sorrateiro e, usando esta estratégia, se instala, feito posseiro, dentro do seu coração. Antes que ela o enxotasse, já ele tinha assegurado um espaço secreto, que a limitava emocionalmente de viver sem ele.

É curioso como este processo se aplica de forma tão semelhante a outras áreas da nossa vida. Não são só as pessoas que, de forma quase discreta, entram por vezes na vida umas das outras; também certos rituais/comportamentos ou substâncias se podem instalar de forma lenta, progressiva e silenciosa, limitando a capacidade de agir racionalmente.

Profissionalmente, tenho observado este processo, de uma forma bastante frequente, relativamente ao uso dos jogos online e das redes sociais. Os estudos assim o comprovam: em Portugal, 25% dos jovens entre os 12 e os 30 anos de idade apresentam dependência online (Patrão, 2017). De uma forma quase impercetível, os jogos e as redes sociais vão ganhando progressivamente muito espaço na vida das pessoas, não havendo, a determinado momento, lugar para mais nada. Na verdade, lugar até há, o que falta é a possibilidade de obter prazer mediante a realização de tudo o resto.

Amigos, prática de desporto, idas ao cinema e outros divertimentos passam a ser desinteressantes, quando no passado eram fontes de prazer. A satisfação das necessidades básicas, como dormir e comer, é muitas vezes remetida para segundo plano, o mesmo acontecendo com os hábitos de higiene. A vida passa a ter como centro exclusivo de prazer o mundo online. Não são só as substâncias psicoativas que provocam alterações no sistema nervoso, há também alterações resultantes da dependência em que que não há ingestão de substâncias.

Este ano letivo entrou no meu percurso profissional uma turma de 5º ano em que muitos dos seus elementos são parceiros no jogo “fortnite (jogo eletrónico multijogador online, criado originalmente em 2011). Referem os professores que são alunos agitados, pouco motivados e quezilentos, que dão à turma tonalidades infernais pelo reboliço que provocam.

Apesar de ser um jogo para jovens com mais de 16 anos, é jogado com frequência por crianças bem mais pequenas; os alunos desta turma são um bom exemplo disso. Os pais, na maior parte das vezes, desconhecem que se trata de um jogo altamente viciante e não controlam o seu uso. Crianças, computador e telemóvel frequentemente dormem lado a lado. E os adultos vão compactuando, o vício vai-se instalando lenta e silenciosamente, sem a total consciência da gravidade do fenómeno pelos progenitores. Afinal, também os pais não conseguem viver sem internet e redes sociais. Também eles sentem sintomas de privação, quando impedidos de aceder ao mundo virtual.

Como na música mencionada, o processo de dependência é sorrateiro e, quando os efeitos negativos já são evidentes, agir contra eles é muito difícil, porque atuar em processos de dependência instalados é extremamente duro.

Melhor seria que os quartos, sobretudo os quartos dos mais novos (67% das crianças em Portugal acedem à internet no quarto), fossem despojados de tecnologias e que os pais tivessem a total garantia de que o tempo destinado ao sono não fosse trocado pela necessidade compulsiva de jogar. Para terminar, resta-me afirmar que, sobre este tema, muito havia ainda para dizer.

Nota: E já agora, se não conhece esta música, a “Teresinha”, vale mesmo a pena conhecê-la…
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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