EDUCAÇÃO

Fantasmas nas escolas

O “fantasma do arquiteto”, corporizado nas caraterísticas arquitetónicas da sala de aula ou de outros espaços da escola paira, assim, sobre todo o edifício escolar e é sentido de diferentes maneiras pelos vários grupos etários/ profissionais que dele fazem uso, conforme conseguem ou não sentir-se bem em cada um dos espaços e fazer deles um uso proveitoso.
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“Fantasmas nas escolas”: estranho título para um texto. “Será certamente sobre o Carnaval, já que foi há pouco tempo.” - poderá o leitor pensar. Mas não, não vou dar conta de nenhum desfile de fantasminhas atempadamente preparado nas aulas com a colaboração das famílias.

Uma notícia relativamente recente (10/11/2019) saída no jornal Público, “A EB de Matosinhos é uma escola nova mas já a precisar de obras”, lembrou-me uma mais antiga (30/09/2016), “Aulas no recreio devido ao calor nas salas”, referente ao Centro Escolar de Rebordosa (Paredes), publicada pelo Jornal de Notícias. A propósito desta última, publiquei então o artigo “Edifícios escolares: ambientes amigáveis e de aprendizagem?”.

Nestas notícias consegui registar pelo menos quatro caraterísticas/problemas comuns às duas escolas, situadas em concelhos diferentes, com alguma distância a separá-los, e com localização em zonas geograficamente distintas. Em ambas existe muito vidro nas paredes; em ambas há janelas nas salas que não abrem; em ambas o calor dentro das salas é excessivamente elevado, mesmo no inverno (o que, obviamente prejudica a saúde e as condições de ensino-aprendizagem); ambas foram concluídas em 2011. Diria eu que os dois primeiros problemas dão origem ao terceiro e quase adivinho que a qualidade do ar que se respira nessas salas não é adequada à saúde.

Falei no tempo presente acerca da escola de Rebordosa; deveria ter falado no passado, pois não tenho informação da continuidade dos problemas e espero que eles estejam sanados; o presente referia-se, evidentemente, ao tempo da notícia saída no JN.

Ao ler a notícia de O Público, de fevereiro passado, e ao recordar a do JN, de setembro de 2016, ocorreu-me um conceito curioso e de muito pertinente aplicação nestes dois casos: o de “fantasma do arquiteto”. Debruçando-se sobre “currículo oculto” (aquilo que se aprende na escola mas que não faz parte do currículo oficial), o sociólogo inglês Roland Meighan (1986) diz que as salas de aulas parecem estar assombradas pelo arquiteto que as desenhou e pelos seus conselheiros. Ilustra esta ideia com a dificuldade/impossibilidade de arranjar a sala de um outro modo (mesas e cadeiras formando grupos em vez de filas, por exemplo) que esbarre contra as conceções de quem a desenhou. Fala também das diferentes camadas de sentido comportadas num único espaço, tendo em conta os diferentes tipos de pessoas que as utilizam: os professores veem uma sala de aula de um modo diferente dos seus alunos e será de uma forma diferente que ela será analisada pelos assistentes operacionais que as limparão.

O “fantasma do arquiteto”, corporizado nas caraterísticas arquitetónicas da sala de aula ou de outros espaços da escola (refeitório, recreio, sala dos professores, etc.), paira, assim, sobre todo o edifício escolar e é sentido de diferentes maneiras pelos vários grupos etários/ profissionais que dele fazem uso, conforme conseguem ou não sentir-se bem em cada um dos espaços e fazer deles um uso proveitoso.

Na notícia citada sobre a Escola EB de Matosinhos, refere-se que o vereador da Câmara Municipal reconhece a existência de problemas de excesso de calor nas salas de aula, mesmo no inverno, já desde o início da construção da escola. Acrescenta que de lá para cá (já lá vão 8 anos!) têm vindo a ser aplicadas, sucessivamente, diversas medidas, por falta de resultado das anteriores, tendo já sido gastos cerca de 200 mil euros. No Centro Escolar de Rebordosa, contava o JN em 2016, o Presidente da Câmara de Paredes afirmava ir resolver a situação por meio de ar condicionado. Ainda que tal solução tenha resolvido o problema do calor, terá deixado em aberto outros problemas: alergias ao ar condicionado, gastos associados ao seu consumo, solução pouco amiga do ambiente. Tanto desconforto e tanto dinheiro que se pouparia com escolas construídas de forma bem pensada, adequada aos seus fins e ao clima!

Que poderoso fantasma assombrará estas duas escolas de vidro? Não me parece que seja apenas o “fantasma do arquiteto” de Meighan”. Por outro lado, serão elas exemplares únicos no país? Não sendo, estarão as outras a padecer dos mesmos males em silêncio? E a saúde de quem as habita? E o processo de ensino-aprendizagem e as repercussões no (in)sucesso escolar?

Meighan, nos seus estudos, concluiu que as crianças/jovens pretendem também ter uma palavra a dizer na construção das escolas. Concordo plenamente. As escolas devem ser concebidas por equipas pluridisciplinares que integrem não apenas técnicos ligados à construção (arquitetos, engenheiros, técnicos de saúde pública, etc.), mas também representantes dos futuros habitantes das escolas (professores, assistentes operacionais, alunos) e devem obedecer a normativos (certamente existentes) que acautelem condições de saúde e segurança - como o controlo da temperatura ambiente, a renovação do ar, a qualidade dos pisos dos vários espaços - e pedagógicas - a adequação do mobiliário aos fins de cada sala e à idade dos alunos, entre tantos outros aspetos. Termino com algumas questões que gostaria de ver respondidas: Serão as escolas alvo destes cuidados nos seus projetos e no acompanhamento da sua construção? Serão as escolas alvo de fiscalização do respeito pelas condições de saúde e segurança obrigatórias antes de entrarem em funcionamento e, regularmente, após o mesmo se iniciar?

Bibliografia
Meighan, Roland. (1986). A Sociology of educating (2nd ed.). London: Cassell Educational.
Armanda ZenhasProfessora aposentada. Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. Autora de livros na área da educação.
Professora profissionalizada nos grupos 220 e 330. Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Professora profissionalizada do 1.º ciclo, pela Escola do Magistério Primário do Porto.
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