PEDIATRIA

Doença Celíaca

Habitualmente, os sintomas de Doença Celíaca iniciam-se alguns meses após introdução do glúten na dieta, mas estes podem ocorrer em qualquer idade. Os sintomas de DC são muitas vezes desvalorizados ou confundidos com outras doenças.
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O que é?
A Doença Celíaca (DC) é uma doença crónica, que afeta todo o organismo humano, baseada numa desregulação do sistema imunitário, despoletada pela ingestão de glúten, em pessoas com propensão genética. Habitualmente, os sintomas de DC iniciam-se alguns meses após introdução do glúten na dieta, mas estes podem ocorrer em qualquer idade. Os sintomas de DC são muitas vezes desvalorizados ou confundidos com outras doenças. As crianças ou adultos podem apresentar diarreia ou obstipação, irritabilidade e “birras frequentes” ou depressão e irritabilidade, vómitos persistentes, dor abdominal, cansaço, úlceras na boca, entre outras queixas. O médico pode ainda observar distensão abdominal (barriga “inchada”) e, em casos mais graves, mau aumento de peso e altura, atraso da puberdade, sinais de osteoporose, anemia ou alteração das enzimas do fígado, dificuldade em engravidar ou abortamentos de repetição.

Papel da genética:
O celíaco tem suscetibilidade genética para a DC, ou seja, tem os genes HLA-DQ tipo 2 e/ou 8. Estes podem estar presentes sem nunca vir a apresentar DC mas 99% dos celíacos tem o HLADQ2/DQ8. Estes genes codificam umas proteínas que se ligam ao glúten e que promovem uma resposta do sistema imunitário disfuncional, culminando numa inflamação e lesão da mucosa intestinal. Apesar de estes genes darem propensão para DC, não são suficientes, já que grande parte da população saudável tem estes genes.

Como sei que tenho DC?
O diagnóstico da doença deve ser feito sempre por um gastroenterologista pediátrico, ou após os 18 anos de adulto. Este inicia-se pelo reconhecimento dos sinais e sintomas da doença ou pelo rastreio dos grupos de risco (familiares em primeiro grau de Celíacos, portadores de doenças autoimunes da tiroide, ou diabetes tipo 1, doentes com Síndrome de Down, Turner ou Williams, ou portadores de deficiência de IgA). Em seguida, o médico pedirá análises de sangue para doseamento de anticorpos específicos e avaliação da suscetibilidade genética para a doença. Em muitos casos poderá ser necessário realizar endoscopia digestiva com biópsias para analisar a histologia e detetar alterações microscópicas da mucosa intestinal.

De forma simples, se houver uma suspeita, deve inicialmente ser feita uma análise do IgA total e anticorpo anti-transglutaminase numa colheita de sangue para a qual não necessita de estar em jejum e que está disponível no centro de saúde desde 2012, custando atualmente 7 euros.

Mas afinal, o que é o Glúten?
O Glúten é um complexo de proteína presente no trigo, centeio, cevada, sendo por isso muito consumido nos países ocidentais. A sua introdução na dieta alimentar deve ocorrer aos 6 meses de idade e nunca antes dos 4 meses, independentemente de ser ou não um bebé com risco de DC.

Doença nova?
Desconhece-se quando a DC terá tido início. Provavelmente remonta há milénios, quando o Homem começou a ingerir cereais, com uma previsão dos primeiros casos a aparecerem no Egipto no tempo dos faraós.

Em 1888 Samuel Gee fez a primeira descrição de Doença Celíaca, assim apelidada, sugerindo que a cura da doença, a existir, fosse por meio da dieta, nomeadamente com evicção de farináceos.

Em 1947 Schein descreveu as alterações histológicos do intestino delgado presentes num celíaco, mas apenas após 1950, Dicke identificou a gliadina como responsável pela agressão intestinal.

Nas décadas de 60 e 70 foram associados à DC os anticorpos antigliadina, antireticulina e antiendomísio, e nos anos 90 o transglutaminase tecidual foi identificado como o autoantigénio da DC, contribuindo para a compreensão e abordagem diagnóstica da doença.

Assim, podemos afirmar que a DC não é uma doença “nova”, mas o seu reconhecimento e capacidade de diagnóstico é.

A nível nacional a prevalência de DC foi estudada tendo-se concluído, em 2017, que é de 1 celíaco para 146 indivíduos.

Como tratar?
Após o diagnóstico de Doença Celíaca (DC) - e só após o diagnóstico - tem de fazer uma alimentação que não contenha glúten, nomeadamente sem trigo, centeio ou cevada. Este é o único tratamento eficaz da doença.

Que alimentos escolher:
No início, a elaboração de uma lista de compras e ementa diária pode demorar um pouco, mas com a prática, alguns cuidados e criatividade vai perceber que é fácil e que poder comer uma enorme variedade de alimentos deliciosos!

Como em qualquer dieta, devemos preferir alimentos naturais, não processados, e assim com menor risco de contaminação por glúten. Nos alimentos processados, a leitura dos rótulos é essencial! Assim, deve procurar e excluir alimentos que contenham na composição: trigo, centeio, cevada, aveia, amido modificado ou proveniente dos cereais não permitidos, malte e aditivos do grupo E-14XX.

Na ausência de contaminação durante a manipulação, são exemplos de alimentos seguros e úteis na cozinha o arroz, o milho, a mandioca, a fécula de batata, a quinoa, a soja, o sorgo, a cana-de-açucar, as sementes de girassol, as ervas aromáticas, as frutas, os frutos secos ou o chocolate puro. Para melhorar a textura das massas sem glúten experimente adicionar gomas do tipo xantana ou guar, gelatina em pó e água gaseificada. Pode adquirir produtos processados específicos em muitos supermercados ou mesmo on-line, desde que cumpram os requisitos.

Durante a preparação das refeições tenha atenção para não as contaminar com glúten, portanto não use utensílios ou óleo que usou com alimentos com glúten.

Fora de casa, os cuidados devem manter-se. Na escola informe os funcionários das restrições e cuidados a ter na confeção das refeições. Nos restaurantes, sempre que possível, contacte-os previamente para assegurar a disponibilidade de refeições adequadas. Para qualquer esclarecimento, contacte e forneça o contacto da Associação Portuguesa de Celíacos (APC)!

Para os celíacos católicos que desejem comungar, estão disponíveis hóstias sem glúten, produzidas em Portugal, nomeadamente pelo Instituto Monsenhor Airosa, em Braga.
Agora que já sabe o que comer, pense nas suas receitas favoritas, substitua os ingredientes com glúten pelos que não o contém e bom apetite! 

Mensagens chave:
- Antes do Diagnóstico médico de DC não retire o Glúten da alimentação.
- A DC não tem cura, mas é completamente controlável pela dieta atempada sem glúten, rigorosa, saudável e equilibrada.
- A exclusão de glúten da dieta dos celíacos deve ser total e sem exceções. No entanto, foque-se no que pode comer e não no que não pode.
- As despesas com alimentos sem glúten podem ser inseridas na declaração de IRS quando acompanhadas de declaração médica e das faturas.
- Não tenha receio de expor todas as suas dúvidas ao seu médico, ele irá esclarecê-lo e aconselhar-lhe fontes de informação fidedignas, como por exemplo a Associação Portuguesa de Celíacos (www.celiacos.org.pt).
- Ajude a partilhar informação sobre a DC, sobretudo em escolas e empresas de restauração, pois só assim se poderá criar um ambiente inclusivo para todos. O Hospital de Baga tem, por exemplo, o “Cartão do Celíaco”, onde consta a seguinte informação:

Maria do Carmo Ferreira, com a colaboração de Henedina Antunes, Assistente Graduada Sénior no Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, Professora de Pediatria na Escola de Ciências da Saúde e Investigadora no ICVS e ICVS/3B’s.

Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
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A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
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