PSICOLOGIA

A química da paixão

“Sabe,” - dizia-me recentemente uma aluna - “acho que a minha mãe nunca esteve apaixonada. Acredita que me pediu para deixar de pensar nele (namorado)? Será que ela acredita que isso é mesmo possível?”
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“As singularidades de uma rapariga loura” - Já ouviu falar? Contou-nos a história desta “loura”, Eça de Queirós, no séc. XIX, período em que viveu.

Pois… não quer saber de louras, ou pelo menos desta, muito menos do que aconteceu num século que já lá vai. Teria seguramente pensado o mesmo, se a história não me tivesse sido narrada por uma “contadora de histórias” - acho que se deveria designar “encantadora de histórias”, - capaz de agarrar a atenção e a curiosidade de uma enorme plateia constituída por alunos e professores. Conhecer a história desta loura e do Macário, personagem por quem por ela se apaixonou, tornou-se rapidamente imperativo, como se intuíssemos que dali poderia surgir um qualquer ensinamento, eventualmente útil num futuro próximo. A propósito do já referido Macário, comentava a contadora que este estaria cego, uma cegueira decorrente da paixão. Porque estava apaixonado, fazia uma leitura deturpada dos comportamentos daquela rapariga loura por quem se apaixonara e não conseguia descortinar o seu lado mais perverso. Na linha deste conto, tenho andado a pensar nos outros apaixonados grandes e pequenos com quem me tenho cruzado.

Curiosamente, embora não seja esse o motivo pelo qual pedem ajuda, vários atingidos pelo Cupido me têm vindo bater à porta. No meio das desgraças escolares e familiares, lá surgem outros desabafos sempre intensos, às vezes felizes e outras vezes desesperados, porque nestas coisas do amor nem sempre há sintonia. Se não fossem os enfeites de Natal e os dias minúsculos e frios que nos encolhem o corpo e a alma, colocaria a hipótese da alteração do calendário e da antecipação da estação do ano em que tudo floresce, nomeadamente a vontade renovada de amar. Estas meninas e meninos têm-me deixado a pensar no efeito altamente poderoso, misterioso e quase obsessivo da paixão. Este não é um sentimento qualquer: é um vulcão difícil de conter, uma energia poderosa dotada de uma vontade muito própria a que a racionalidade tem dificuldade em dar sentido. Não são só os adultos que sofrem de amor; os mais novos também podem padecer dos mesmos sintomas avassaladores e inexplicáveis. “Sabe,” - dizia-me recentemente uma aluna - “acho que a minha mãe nunca esteve apaixonada. Acredita que me pediu para deixar de pensar nele (namorado)? Será que ela acredita que isso é mesmo possível?”

Talvez esta e outras mães/pais tenham esquecido o passado e desconheçam as alterações bioquímicas que a paixão impulsiona a nível cerebral. Estudos recentes demonstraram que várias áreas cerebrais se ativam quando o amor está no ar. Através de uma ressonância magnética, a professora Helen Fisher, da Universidade de Rutgers, conseguiu localizar no cérebro zonas específicas relacionadas com os sentimentos amorosos. Quando há um desgosto amoroso há uma elevada ativação de uma zona designada “núcleo accumbens”. Quando um novo amor surge, é a área tegmental ventral que é ativada. A professora já mencionada constatou também que, quando os cérebros de pessoas apaixonadas eram submetidos a uma ressonância magnética funcional (mede a atividade cerebral), após olharem para a fotografia da pessoa amada, o cérebro tornava-se mais ativo em regiões ricas em dopamina, o neurotransmissor do prazer. Na verdade, deixar de pensar no alvo da paixão não é tarefa fácil porque há toda uma química que torna o processo realmente difícil, diria mesmo doloroso.

Como o Natal é uma época que apela a sentimentos nobres, considerei que este tema, embora não seja propriamente natalício, é dotado de grande poder, na medida em que tem um poder transformador imenso!

Feliz Natal!

Nota: Agradeço muito à Dra. Ana Esteves, a já referida “encantadora de histórias”, que me deixou desejosa de ler mais livros de Eça de Queirós.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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