EDUCAÇÃO

Escrevendo a uma amiga, de coração destroçado

Minha amiga, vou antes lembrar tempos mais felizes, aqueles em que nos conhecemos, há várias décadas. Eu, professora; a minha amiga, auxiliar de ação educativa. Em quantas coisas não nos ajudámos! Quantas estratégias não combinámos ambas para lidarmos com alunos mais difíceis! Quantas estratégias para apoiarmos outros mais frágeis! E com sucesso!
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¿Nota inicial: Com o coração destroçado, escrevo esta carta, a uma assistente operacional real, mas que não nomeio, bem como não forneço quaisquer dados que permitam identificá-la. A situação verdadeira que descrevo na carta, infelizmente, atingirá muito mais profissionais. O direito a uma reforma digna no fim de uma vida de trabalho é um direito básico de qualquer trabalhador.

Minha querida amiga:

Escrevo-lhe hoje, muito triste e revoltada com a notícia que me deram: teve que regressar ao serviço, apesar de não estar recuperada do seu AVC! Faltam-me as palavras para a animar, como me faltam as palavras para exprimir a minha revolta pela violência que está a viver e pelo sofrimento intenso que sei que está a sentir. AVC grave há menos de um ano; internamento hospitalar durante um mês; muita fisioterapia depois, foi recuperando o andar, sempre com muita dificuldade e muitas limitações. Faz tempo que não lhe telefono e penalizo-me por isso. Mas sempre que falámos ao telefone, a minha amiga contava-me como lhe custava não poder trabalhar; a falta que sentia do trabalho, que sempre foi a sua vida. Na sua voz, dantes sempre tão alegre, morava a tristeza que nem o telefone a intermediar e a transmitir a sua fala conseguia esconder.

Sei que continua a ter muita dificuldade na locomoção. Sei que continua a arrastar uma das pernas o que, além de dificultar o andar, há de desestabilizar o equilíbrio. Sei que sente a cabeça muito cansada. Mas sei que foi considerada apta para o serviço, pela junta médica!... Apta para andar numa escola cheia de crianças e adolescentes, que enchem os corredores correndo aos encontrões e gritando; ora obedecendo às instruções, ora resistindo e até destratando os adultos. Sei que as suas colegas a vão buscar a casa e levá-la no regresso do trabalho, porque não tem condições de se deslocar nos transportes públicos, tal é a sua fragilidade. Sei que se encontra novamente na escola, no meio dos alunos, no meio das correrias. Sei que quase deixou de falar com as suas colegas, com quem dantes falava animadamente. Sei que a sua cara é o espelho da tristeza. E não precisava de o ter ouvido a ninguém; conheço-a tão bem! Como deve sentir-se humilhada, injustiçada e indignada. Ou melhor, oxalá que seja isso que pensa e sente, porque se sente que já não presta para nada (e isso é o que receio que pense), a crueldade da sua situação é ainda pior! Adivinho por trás de tudo isto uma enorme depressão, de que já suspeitava das últimas vezes em que falámos ao telefone.

Minha amiga, vou antes lembrar tempos mais felizes, aqueles em que nos conhecemos, há várias décadas. Eu, professora; a minha amiga, auxiliar de ação educativa. Em quantas coisas não nos ajudámos! Quantas estratégias não combinámos ambas para lidarmos com alunos mais difíceis! Quantas estratégias para apoiarmos outros mais frágeis! E com sucesso! O seu sorriso terno com as crianças, o seu riso aberto quando a conversa animava! O seu carinho, o seu cuidado incansável, as bolachas que saiam do bolso para recompensar um ou outro! A contínua circulação pelos corredores a tomar conta dos alunos, muitos alunos de idades variadas e comportamentos variados também, durante os intervalos; o acorrer às chamadas dos professores durante as aulas, sempre disponível e solícita; a vassoura e a esfregona na mão quando era altura disso ou uma folguinha o permitia. Todo o dia a girar entre múltiplos serviços, com os anos a passarem. Estamos ambas nos sessentas! Mas o que nunca passou foi a sua vontade de trabalhar, apesar da dificuldade que a idade vai acrescentando; a sua contínua simpatia humilde e generosa, a sua meiguice, o seu sorriso tão doce.

Não nos vemos há muito tempo. E tenho muitas saudades. De há anos para cá, só o telefone (e o coração!) nos mantém ligadas. Hoje é um dia triste para mim. Não é justo que quem trabalha uma vida inteira não tenha direito a tratar-se de modo a recuperar o mais possível de uma doença que poderá deixar sequelas irreversíveis. Injustiça, indignidade são as palavras que martelam na minha cabeça e no meu coração! Gostava de estar consigo para lhe dar um abraço do tamanho do mundo e a encher de beijos. Sei que não lhe resolveria o problema de ter que regressar à escola no dia seguinte. Mas acredito que lhe iria dar uns minutos de alegria em que iria sentir todo o valor que lhe dou, porque o tem.

Adoro-a, admiro-a e choro consigo, em silêncio, com era em silêncio que chorava quando falava comigo ao telefone, e como acredito ser sem silêncio que o faz publicamente no trabalho, na situação de humilhação e desrespeito em que está!

Daqui vai um abraço muito, muito grande e o desejo enorme de que receba o tratamento justo e humano que merece uma pessoa que deu tanto aos alunos, à escola, à educação: uma reforma com dignidade e apoio médico para recuperar o mais possível.

Um milhão de beijos

Armanda
Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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