PEDIATRIA

A importância da sesta na criança

A privação do sono em idade pré-escolar pode ter consequências a curto e a longo prazo, nomeadamente perturbações físicas, psíquicas e emocionais, que por vezes são irreversíveis
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Em Portugal, a maioria das crianças não dorme o número de horas recomendado para a sua idade. Consequentemente, uma elevada percentagem de crianças em idade pré-escolar tem privação permanente de sono, que predispõe à ocorrência de sestas tardias ou no trajeto para casa, com repercussão no sono noturno.

A privação do sono em idade pré-escolar pode ter consequências a curto e a longo prazo, nomeadamente perturbações físicas, psíquicas e emocionais, que por vezes são irreversíveis. Está frequentemente associada a sintomas de impulsividade e pouca atenção, que se confundem com a perturbação de défice de atenção e hiperatividade. Outros exemplos são, o aumento de acidentes e quedas frequentes, maioritariamente ao final da tarde, ou então o aumento do Índice da Massa Corporal (IMC) alguns anos mais tarde. Os efeitos também se podem repercutir nos pais, aumentando o risco de depressão e disfunção familiar.

O sono permite-nos recuperar física e psiquicamente o dia a dia, reorganizando todas as nossas funções, sendo que nas crianças ainda contribui de uma forma fundamental para o seu crescimento corporal.

As recomendações da Academia Americana de Medicina do Sono (AASM), relativamente ao número total de horas diárias de sono são:
- 4 a 12 meses: 12 a 16 horas (incluindo 2 a 3 sestas)
- 1 a 2 anos: 11 a 14 horas (incluindo 2 sestas)
- 3 a 5 anos: 10 a 13 horas (incluindo 1 sesta)
- 6 a 12 anos: 9 a 12 horas de sono noturno
- 13 a 18 anos: 8 a 10 horas de sono noturno
(antes dos 4 meses de idade, observa-se uma elevada variabilidade dos padrões normais, pelo que esta faixa etária não é comtemplada)

Podemos, portanto, dizer que as crianças de 1 a 2 anos necessitam de 10-11 horas de sono noturno e 2-4 horas de sesta e as crianças dos 3 a 5 anos necessitam de 10-11 horas noturnas e 1-3 horas de sesta.

A família tem um papel fulcral no estabelecimento de um sono saudável, e é da sua responsabilidade criar normas para a “higiene do sono”:
1. Estabelecer um horário regular de deitar, com diferença máxima aos fins-de-semana de 30 minutos.
2. Criar uma rotina de deitar nos minutos que precedem a ida para a cama; por exemplo, vestir o pijama, lavar os dentes, ler uma história.
3. Deitar a criança na sua cama ainda acordada, permitindo se necessário o uso de objeto de transição como uma fralda, chupeta ou boneco.
4. Evitar adormecer em local que não a sua própria cama.
5. Evitar atividades estimulantes (por exemplo exercício físico) antes de adormecer
6. Evitar bebidas estimulantes (por exemplo chá e café) antes de adormecer
7. Não utilizar ecrãs pelo menos 1 h antes de adormecer (TV, telemóvel, tablet ou consolas).

Até quando se deve realizar a sesta?
As crianças não são todas iguais, existindo uma variabilidade individual intrínseca de cada um, que deve ser respeitada. É importante que os pais estejam atentos aos sinais que a criança transmite.

São indicadores de que o seu filho está preparado para um único ciclo diário de sono à noite, os seguintes:
- apresenta resistência prolongada na hora de adormecer à noite porque não está cansado;
- apresenta, comparativamente ao habitual, despertares noturnos;
- acorda muito mais cedo de manhã;
- tem incapacidade em adormecer no período inicial de 30-40 minutos da sesta;
- mostra capacidade de passar o dia acordado, com preservação do humor, atividade e atenção, sem necessidade de sestas.
 
Esta variabilidade individual é influenciada por fatores comportamentais, genéticos, sociais e ambientais. A partir dos 5 anos, uma minoria de crianças inicia a transição para o ciclo de sono monofásico, apenas sono noturno, uma grande parte ainda necessita da sesta, sono bifásico.

Com base em vários estudos mundiais, e pesando as consequências da privação da sesta nas crianças com as suas vantagens, as recomendações sugerem que a sesta deve ser implementada até à idade escolar, nomeadamente nas creches, infantários e pré-escola, tendo em conta a idade da criança e as suas necessidades individualmente.

Em resumo, a sesta nas creches, infantários e pré-escola, deverá realizar-se proporcionando um ambiente adequado à criança, tendo um plano individual de sesta acordado com a sua família e promovido pelos educadores de infância, sendo que nunca deverá ser de carácter obrigatório:
Menos de 2 anos: duração das sestas 2 a 3 horas repartidas em 1 a 3 sestas.
Entre 2 e 3 anos: uma única sesta, com duração de cerca de 2 horas, de preferência início da tarde, podendo ser acordado após este período.
Dos 3 ao 5/6 anos: uma única sesta, com duração inferior ou igual a 90 minutos, de preferência início da tarde, podendo ser acordado após este período. Após os 4 anos a avaliação deve ser feita conjuntamente com a família e educadores de infância.

Lídia Leite, com a colaboração de Carla Moreira, Pediatra do Hospital de Braga
Serviço de Pediatria do Hospital de BragaEste espaço é da responsabilidade da equipa médica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga, instituição certificada pelo Health Quality Service (HQS).
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
A informação aqui apresentada não substitui a consulta de um médico ou de um profissional especializado.
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.