PSICOLOGIA

Educação inclusiva: o lado lunar

Quem trabalha na escola, sabe que as medidas anteriores não eram claras para todos e muitos não lhes davam o devido reconhecimento, empurrando para a educação especial alunos que poderiam obter sucesso se estas fossem aplicadas.
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A nova legislação da educação especial, que agora se designa educação inclusiva (Decreto-Lei nº 54/2018 de 6 de julho), trouxe-me à memória o Dinis. O problema deste aluno que, há dois anos frequentava o 5º ano de escolaridade, traduzia-se na incapacidade de se exprimir plenamente através da escrita, pelo facto de apresentar uma disgrafia. Os testes de português, sobretudo as composições, eram tratados verdadeiramente indecifráveis.

Desafiei este aluno a desenvolver competências em termos de processamento de texto em computador: teria de exercitar bastante, para se tornar suficientemente rápido, a fim de tornar viável propor aos professores a realização dos testes com recurso ao computador. O meu desafio foi levado muito a sério por ele e, como prova disso, volta e meia, o Dinis procurava-me no sentido de partilhar os textos elaborados por si no computador e os registos do tempo despendido na sua elaboração: estava a tornar-se cada vez mais rápido e eficiente, os seus registos eram prova inequívoca de tal. Paralelamente, segundo me confessou a mãe, ele estava a ficar progressivamente mais motivado. Como é que uma estratégia tão simples estava a traduzir-se, de uma forma tão positiva, na perceção que o filho tinha agora da escola, questionava-me ela. Uma medida simples que, na verdade, significava o derrubar de uma grande barreira: a muralha da escrita manual! O Dinis continuaria a fazer os seus registos nos cadernos, mas, nos momentos da avaliação, poderia vir a demonstrar de forma clara os seus conhecimentos, sem ser necessário da parte dos professores recorrer a complexas técnicas de cartomancia.

Tudo parecia simples, a estratégia parecia exequível e potencialmente poderosa, até porque mesmo antes de implementada integralmente, já estava a surtir efeitos positivos, naquele aluno desmotivado. Mas… há sempre um “mas”, logo múltiplos problemas se levantaram quando a sugestão foi apresentada aos professores da turma: teste no computador? E como vamos arranjar um computador? O computador que existia na sala de aula de facto não podia ser usado para esse fim. E os outros alunos, que pensarão? Vão também querer usar o computador. E que enquadramento tem essa estratégia? E quando chegarem os exames? O aluno não poderá usar o computador porque nem sequer é da educação especial…

Na sequência desta catadupa de problemas, só um professor implementou a medida, a professora de português. O aluno que tinha habitualmente nota negativa nesta disciplina passou a ter resultados satisfatórios, até porque começou a receber cotação na composição, algo que no passado não acontecia. Posteriormente, e porque estou sempre a aprender, avaliei melhor o risco corrido com esta estratégia, que acabou por ser implementada de uma forma muito restrita. O Dinis sentir-se-ia certamente defraudado: não estava ele à espera de fazer os testes no computador? O certo é que ele passou a ser olhado pelos professores de uma outra maneira e os testes passaram a ser corrigidos de forma diferente, frequentemente solicitando o apoio dele na respetiva correção. Este aluno deixou de ser penalizado tão severamente pela sua escrita hieroglífica e isso foi uma alavanca poderosa no seu autoconceito académico.

Voltando ao início desta reflexão e à nova legislação da educação inclusiva: já ninguém pode dizer que as estratégias que sugeri anteriormente, para o aluno que tenho estado a mencionar, não têm enquadramento legal. As estratégias universais e, dentro delas, as “acomodações” contemplam esta e múltiplas outras medidas de intervenção. Alguns dirão: mas essas medidas os professores já usavam; são as medidas de diferenciação pedagógica.

Quem trabalha na escola, sabe que as ditas medidas não eram claras para todos e muitos não lhes davam o devido reconhecimento, empurrando para a educação especial alunos que poderiam obter sucesso se estas fossem aplicadas. Por este motivo, e embora já tenha elaborado um artigo a levantar múltiplas questões sobre este decreto - Novo decreto da educação especial: há duvidas? - que continuo a subscrever tenho de afirmar que este lado, o das medidas universais, é para mim o seu lado lunar, como diria Rui Veloso naquela linda música com esse mesmo nome: “Lado lunar”. Sei que muitos dirão: não concordo! Pois, para mim, que vi múltiplas vezes a diferenciação pedagógica ser olhada com reservas e dúvidas, este é um aspeto muito positivo desta legislação, pese embora, tenha muitas reservas em relação à implementação de outras medidas lá preconizadas.
Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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