PSICOLOGIA

A mulher certa

Porque provavelmente estará de férias e com mais tempo disponível, talvez seja este o momento adequado para tentar descobrir se encontrou a mulher/o homem certa(o).
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“Pensava na fita lilás, como se dela tivesse ouvido falar a mexeriqueiros. No fim de contas, o que ocupava um espaço tão importante na minha vida podia ser um motivo de conversa, ao chá, ou durante um jantar: “Conhecem os X ... Sim, o industrial e a mulher. Vivem na Colina das Rosas. Não estão lá muito bem. A mulher soube que o marido gosta de outra. Imaginem, encontrou-lhe na carteira uma fita lilás, e descobriu tudo… Sim, vão divorciar-se.” Poder-se-ia conversar assim do que nos estava a acontecer. Quantas vezes ouvi conversas do género, de fugida, em sociedade, sem lhes prestar atenção… Um dia, possivelmente, também nós seríamos motivo da tagarelice mundana, o meu marido, eu e a mulher da fita lilás…”
A mulher certa. Sándor Márai. Publicações Dom Quixote

Porque provavelmente estará de férias e com mais tempo disponível, talvez seja este o momento adequado para tentar descobrir se encontrou a mulher/o homem certa(o). Viverá esta(e) a seu lado ou estará algures muito distante? Remeto a resposta a esta questão para o livro que comecei por citar e que, segundo os meus parâmetros, vale mesmo a pena ler, pela sua profundidade e pelo seu poder de nos transportar até ao mais íntimo das suas personagens. Ao longo de 400 e tal páginas, três pessoas, através de longos, deliciosos e arrebatadores monólogos, levam-nos ao interior da sua alma e ajudam-nos a concluir que jamais devemos/podemos julgar os outros, porque o vamos fazer, certamente, de uma forma incorreta. Poderia usar vários argumentos para fundamentar esta afirmação, que à partida até parece ser óbvia, mas gostaria de sublinhar apenas um: o facto de não dispormos de todos os dados para nos pronunciarmos sobre a vida dos outros e das suas relações.

Recentemente, numa conversa de café, alguém com formação académica relatava-me os possíveis motivos para a separação de um casal e as consequências visíveis dessa separação. O meu interlocutor não conhecia as pessoas em causa, pois não convivia com elas diretamente, e os dados de que dispunha advinham unicamente do facto de serem vizinhos e isso permitir alguma observação. Convictamente, julgava o elemento feminino do casal mencionado, atirando para ela os motivos do fim da relação e a degradação posterior da vida do ex-marido. Como podemos nós, adultos, por vezes até já muito longe da juventude, chegar a tantas conclusões, quando a vida já nos ensinou, ou já nos deveria ter ensinado, que as relações são de uma extrema complexidade e subtileza; cheias de tantas pequenas coisas quase invisíveis que, tal como as grandes coisas, têm o poder de ir envenenando e enfraquecendo os laços que inicialmente pareciam ter tudo para serem duradouros? Mesmo quando julgamos os outros, que supostamente conhecemos bem porque convivem muito connosco, corremos sempre e inevitavelmente o risco de nos enganarmos redondamente nas nossas sábias conclusões. E porquê? Porque fazemos uma análise puramente racional da situação, esquecendo o poder da emoção. Parafraseando o tão conhecido neurologista António Damásio, olvidamos que “a emoção faz parte integrante dos processos de raciocínio e tomada de decisão, para o pior e para o melhor”. Pois é, na verdade, este é um dado que escapa a quem, de fora, julga a situação, os sentimentos envolvidos e o poder destes na tomada de uma decisão. A razão pode estar lá, mas os sentimentos também estão e têm um poder inquestionavelmente grande!

Espero ter-lhe despertado curiosidade pela leitura do livro A mulher certa. Se decidir lê-lo, para além de poder responder mais conscientemente à questão com que iniciei esta reflexão, ficará com a certeza de que terá de repensar a sua atitude quando começar a avaliar/julgar/divagar sobre a vida dos outros, pois muitos dados faltarão para que faça uma avaliação correta, isenta e minimamente justa. Mas ainda mais importante que isto, ficará a conhecer, caso ainda não conheça, este extraordinário escritor húngaro que, lamentavelmente (sem qualquer juízo de valor), pôs fim à sua vida aos 89 anos.

Adriana CamposLicenciada em Psicologia pela Universidade do Porto, na área da Consulta Psicológica de Jovens e Adultos e mestre em Psicologia Escolar. Detentora da especialidade em Psicologia da Educação e das especialidades avançadas em Necessidades Educativas Especiais e Psicologia Vocacional e de Desenvolvimento da Carreira atribuída pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Atualmente desenvolve a sua atividade profissional no Agrupamento de Escolas do padrão da Légua em Matosinhos.
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