EDUCAÇÃO

O que é preciso para ser bom professor?

O professor tem de conhecer bem os conteúdos científicos que ensina. E precisa de os atualizar constantemente. Mas não basta conhecer o que se ensina, nem sequer saber mais do aquilo que se ensina. É preciso saber trabalhar esses conhecimentos de modo a torná-los interessantes e acessíveis aos seus alunos.
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“Estou num grande dilema.
Sou mãe de três [filhos], mas o meu mais novo tem-se queixado de várias situações que a meu ver também é bullying, só que tenho tentado não valorizar..., sem sucesso, está a tornar-se insuportável. De palmadinhas no “cachaço”, a insultos e por último humilhação.
Pergunto-vos:
Ser uma boa docente é só saber transmitir aos alunos o conteúdo do programa letivo?
Para lidar com crianças/alunos é preciso ter pedagogia?
Como posso fazer para denunciar a professora do meu filho?”

(Questão enviada por uma leitora, no mês de junho)

O que é um bom professor? Esta pergunta, aparentemente de fácil resposta, tem dado lugar a muitas reflexões e à elaboração de muitas teorias. Talvez uma resposta comum seja: é um professor que ensina bem. Mas também “ensinar bem” não é algo que se possa definir de forma única. Deixarei aqui uma breve reflexão sobre as dificuldades que se colocam ao exercício da profissão docente e sobre competências essenciais para o seu desempenho, sem pretender esgotar o tema.

O professor tem de conhecer bem os conteúdos científicos que ensina. E precisa de os atualizar constantemente, pois, como se sabe, o conhecimento está em contínua evolução. Mas não basta conhecer o que se ensina, nem sequer (como é fundamental) saber mais do que aquilo que se ensina. É preciso saber trabalhar esses conhecimentos de modo a torná-los interessantes e acessíveis aos seus alunos, sejam eles do ensino básico, do ensino secundário, de um curso profissional ou do ensino superior; estejam eles familiarizados com o tema, devido, por exemplo, ao contexto em que vivem, ou não tenham tido qualquer relacionamento prévio com ele.

Um professor não trabalha isolado na sua sala de aula. Faz parte de uma comunidade educativa, em que se integram os colegas (docentes da mesma turma, professores da mesma disciplina, etc.), os alunos (de cada uma das turmas, ou de uma turma única, no caso do 1.º ciclo), os assistentes operacionais, outros profissionais existentes na escola (psicólogo, por exemplo), os encarregados de educação, instituições/elementos da comunidade com que se estabelecem parcerias educativas. Ser professor é, consequentemente, uma profissão eminentemente relacional, não apenas dentro da sala de aula, mas também fora dela. Há princípios e valores que regem as relações interpessoais, entre os quais se contam o respeito mútuo que, por todos, tem que ser observado.

As relações interpessoais do professor com os seus alunos são uma componente fundamental do processo de ensino-aprendizagem. O professor tem de respeitar os alunos. Estes têm de respeitar o professor. Considerando o lado do professor, é importante que ele tente desenvolver relações não apenas de respeito mas de empatia. Um professor que respeita e sabe fazer-se respeitar sem ser exageradamente severo e muito menos injusto. Um professor que sabe dosear a exigência de um bom clima de trabalho com o gosto pela matéria, o surgimento de momentos de humor, a empatia recíproca entre ele e os seus alunos (sem a pretensão idílica de que tem que gostar igualmente, e muito, de todos os alunos; e, da mesma forma, ser por eles muito querido). Um professor que gosta de ensinar e que gosta de trabalhar com crianças/jovens, conseguindo, com eles, criar laços. O bom ambiente relacional na aula (não confundir com “professor = amigo”; logo “professor = permissivo”) promove uma maior predisposição dos alunos para a aprendizagem. A aprendizagem, pelo contrário, fica seriamente comprometida num ambiente de indisciplina, em que alguns alunos não respeitam o professor nem os colegas, ou num ambiente em que os alunos sentem medo do professor ou o consideram injusto.

Quando as regras de convivência não são – ou parecem não ter sido – respeitadas, é importante não deixar avançar o problema e tentar esclarecê-lo. Muitas vezes, de mal-entendidos não resolvidos desenvolvem-se verdadeiros problemas de difícil resolução. Consideremos o caso de uma criança que se sente maltratada pelo seu professor. O encarregado de educação deve escutá-la e ir à escola colocar a questão ao professor (1.º ciclo) ou ao diretor de turma (restantes ciclos e ensino secundário), devendo, igualmente, escutá-lo. É bem possível que numa conversa deste tipo as questões sejam esclarecidas e, um melhor conhecimento da criança pelo professor, o possa até ajudar a interagir com ela de forma mais adequada. Como é também possível o encarregado de educação concluir que o seu filho interpretou mal ago que ocorreu ou ainda não se adaptou a regras do novo nível de ensino que frequenta; poderá, então dialogar com ele e ajudá-lo a retirar a carga negativa do incidente que viveu, ao mesmo tempo que o professor poderá criar oportunidades de interação positiva e desdramatizadora dessas impressões da criança. Se, pelo contrário, os problemas se agravarem, o diretor de turma poderá continuar ainda a ser um mediador a quem se deve recorrer. Quando as proporções do problema parecem, aos pais, recomendar o recurso a instâncias superiores, só então deverão recorrer a elas, seguindo a ordem hierárquica adequada. Na profissão docente, como em qualquer outra, existem profissionais cujas condutas, pela sua incorreção, devem ser alvo de investigação e, eventualmente, de punição.

Termino com alguns provérbios que enaltecem as vantagens do diálogo, o verdadeiro diálogo, em que se fala e se ouve; o diálogo por onde deve começar a resolução de qualquer conflito, evitando deixar que os problemas se extremem e a fúria se instale, requerendo soluções mais radicais e menos satisfatórias.

“Respeitar para ser respeitado!”

“A conversar é que a gente se entende.”

“Se queres ser bom juiz, ouve o que cada um diz.”

“A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira.”

Armanda ZenhasMestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
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