NUTRIÇÃO

O sabor agridoce do açúcar

Apesar de estar presente na alimentação, nomeadamente na preparação de doces e sobremesas dos gulosos portugueses (e portuguesas...), é o seu uso frequente e excessivo que o torna uma ameaça para a saúde pública.
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Quando nos referimos ao açúcar, no singular, normalmente queremos dizer o açúcar que pomos nos bolos ou no café e que mais não é do que um hidrato de carbono, dissacarídeo, de sabor doce, e cujo nome é sacarose. É uma junção de dois açúcares mais simples, a glicose e a frutose. Um outro, a lactose, que está presente no leite de vaca, é também hoje, por bons e maus motivos, muito comum no léxico dos portugueses.

Quando nos referimos a açúcares, é aos que se encontram de forma natural em todos os alimentos que contêm hidratos de carbono, tais como laticínios, fruta, vegetais e cereais, e a ingestão destes alimentos é saudável e desejável uma vez que com eles ingerimos também sais minerais, proteínas, minerais, vitaminas e fibras.

Apesar de estar presente na alimentação, nomeadamente na preparação de doces e sobremesas dos gulosos portugueses (e portuguesas...), é o seu uso frequente e excessivo que o torna uma ameaça para a saúde pública.

Antigamente, nos 365 dias do ano, os “festins” confinavam-se ao Natal, Páscoa, aniversários, casamentos e batizados. Não me consta que fossem muito frequentes os almoços de trabalho com clientes, que obrigam a uma espécie de ritual que inclui refeições copiosas, bem regadas com vinho e finalizadas com uma sobremesa e que, para alguns, quanto mais doce, melhor. Porque efetivamente a comida cria laços de afinidade entre as almas vivas.

Antigamente, a vida era mais resumida ao trabalho e à família nuclear. Hoje em dia, além de todos essas datas festivas, comemoram-se com doces todos os aniversários no infantário e depois fora dele. No trabalho, almoça-se e janta-se fora com os amigos e conhecidos, porque as nossas relações sociais se alargaram ao longo dos anos, e ainda bem.

Mas há que dar um outro sentido a estas comemorações e não as resumir só a comer e beber. Rir, conversar, ouvir música, dançar não são excelentes formas de passar o tempo em boa companhia? Vamos resumir os prazeres da vida ao prazer de comer? E as consequências disso para a vida? A certa altura, se o excesso de peso, a diabetes, uma doença cardiovascular ou um cancro nos limitarem ou incapacitarem e já não pudermos sair de casa, a comida passará a ser mesmo o único prazer da vida? Quando, afinal, há tantos e tantos outros...

A ingestão de sacarose não tem qualquer interesse nutricional mas é inegável o valor que acrescenta ao sabor dos alimentos. Muitas vezes, é reforçada nos produtos “magros” para compensar a perda de sabor originada pela remoção da gordura. Dito de outra forma, muitas vezes os alimentos que alegam 0% de gordura têm um elevado teor de açúcar para os tornar mais apelativos. A sacarose, vulgo açúcar, não fornece quaisquer outros nutrientes e por isso se diz que aporta calorias vazias.

O que esconde e onde se esconde o açúcar?
Segundo a Organização Mundial de Saúde, o consumo de açúcar não deve exceder 10% das calorias totais para um dia, mas 5% seria o ideal. Traduzindo, para um adulto de estatura média e que tem que consumir 2000 calorias por dia, seria desejável não ultrapassar os 50 g, idealmente os 25 g de açúcar por dia. Isto representa 5-6 pacotes. Dir-me-á, mas eu nem como açúcar, ou só ponho um bocadinho no café, etc. E iogurte, não come, e alimentos processados, não come? E refrigerantes ou sumos processados, não bebe?

Concretizemos estes exemplos:
Uma lata de Coca-Cola contém cerca de 35 g de açúcar; uma de Fanta cerca de 42 g; 1 iogurte Bifidus marca Continente contém 20 g de açúcar, o equivalente a 3-4 pacotes, um bolinho All-Bran da Kellog’s com 40 g de peso, tem cerca de 14 g e uma porção de lasanha da marca Buitoni contém 11 g de açúcar. É fácil fazer este exercício matemático: se comer uma barra de cereais como snack, uma lata de refrigerante ao almoço e outra ao jantar, um iogurte ao lanche e uma porção de lasanha, não contando com mais nada, terá ingerido ao fim do dia cerca de 130 g de açúcar, o que corresponde a mais do dobro do “permitido”.

Pelos efeitos negativos sobre a saúde que são hoje já estudados e conhecidos, o consumo excessivo de sacarose pode induzir resistência à insulina, diabetes, síndrome metabólico, cancro, cáries dentárias e doenças cardiovasculares.

A frutose, o mel ou os adoçantes serão melhores alternativas?
A frutose é melhor do que a sacarose?
Os adoçantes são melhores do que o açúcar?

Estes temas, para reflexão, serão abordados com maior profundidade no próximo artigo. Até lá, um conselho velho: se não prescinde de algum alimento doce no seu dia a dia, consulte um nutricionista para que este o possa incluir na sua alimentação diária sem que isso lhe traga graves consequências para o peso e para a saúde. Porque a saúde mental também conta, e muito...
Paula VelosoNutricionista e autora de Dietas sem DietaDieta sem Castigo e Peso, uma questão de peso.
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